Em defesa da cópia
Lavoisier já dizia que nada se cria,
que tudo se transforma. E você aí encantado com a originalidade
de seu trabalho?
Estou a pouco tempo atuando como designer e nunca criei
nada! E não sinto com isto qualquer tipo de frustração.
Concordando com Lavoisier, apenas modifiquei ou adaptei
ao propósito do projeto desenvolvido as formas e cores
percebidas por mim, na vida.
Ao menos tenho total certeza de que não fui eu quem
criou o círculo, ou o desfoque, ou o ciano. É do criador
desses conceitos o mérito. Que mérito, não? Depois de
mim ninguém mais criará coisa alguma, apenas modificará,
transformará.
Todo trabalho projetado e concretizado através de que
mídia for é uma cópia. Uma cópia das imagens armazenadas
na caixinha cinzenta, em nossa memória. Uma cópia de
tudo que nos foi percebido um dia. E nosso papel como
designer é gerar cópias, das cópias que, por sua vez,
foram cópias de uma cópia.
Imagine se hoje estivesse vivo o Platão. Estaria ele
lotando auditórios e palanques de designers, acusando-os.
– São vocês uns copistas, disto não passam. Explanando
seus devaneios (e desvarios) acerca do mundo das idéias,
que comporta os originais. Neste mundo sensível em que
vivemos estariam as cópias. – E vocês, designers, copiando
o que já é cópia do original? Que mimeses exercem!
Então, se fundada hoje a República platônica, não iria
só este filósofo grego banir os poetas e artistas, mas
também mandar trucidar toda a trupe de designers, estes
copistas. Aí mesmo que nossa profissão não seria regulamentada,
ao contrário, seríamos proibidos de exerce-la.
E tudo por que? Porque incoerentemente reproduzimos
num logotipo de uma loja qualquer uma curvinha que não
é nossa. É do mundo das idéias (ou da Nike), que vimos
em terra (ou num tênis) e pronto, copiamos!
Agora, a pergunta? Se todos copiamos, o que nos resta?
A reinvenção da cópia! Copie, mas o faça reinventando.
Reinvente a cópia! Recorra, para isto, à caixinha de
formas e cores que tem em mente. Misture bastante, acrescente
cliente e pronto! Você acaba de reinventar uma cópia,
tornando única.
E quando a caixinha esvaziar, quando não tiver mais
o quê copiar, dê um passeio pelo grande centro, visite
shopings, viaje pra bem longe, leia sobre os mais diversos
assuntos, ouça música, dance, vasculhe catálogos de
imagens e velhos livros de imagens nos sebos. Garanta
à caixinha um grande e variado conteúdo de modelos.
Na hora em que lhes faltarem idéias, ela não deixará
a dever.
Notas finais:
Em defesa do texto:
Este não possui conteúdo niilista, portanto defende
a cópia reiventada e não o plágio deslavado e descarado.
Até porque a palavra cópia neste texto não remete (e
nem intensiona remeter) ao jargão "chupar".
Até porque pega mal (bem mal) para uma moça andar insinuando
em entrelinhas estas coisas no site dos outros.
Em tempo:
Copista é sinônimo de grande bebedor. Mas não tenho
nada a ver com isto.Quem o diz é o Aurélio.
Mais em tempo ainda:
O mesmo Aurélio era mesmo amigo de Lavoisier (e nosso).
Em uma de suas explicações do vocábulo copiar, lá está
o termo Inspirar-se.







