Nos últimos meses, o assunto BYOD (Bring Your Own Device) tem sido bastante debatido. Eu, pessoalmente, me envolvi em várias palestras e reuniões com clientes para debater o tema. Mas observo muitas vezes que a amplitude do impacto do modelo de consumerização e a consequente transformação do paradigma de PC (Personal Computer) para Personal Cloud não tem sido adequadamente percebido. Temos que olhar além do BYOD. Devemos começar a visualizar o conceito de BYOC, ou Bring Your Own Cloud.
Sair do conceito de My Documents para My Cloud tem implicações bastante significativas na maneira de se pensar e usar a computação. A nuvem pessoal vai transformar (aliás, já está transformando) a nossa experiência digital. Uma nuvem pessoal é uma combinação de serviços e aplicações nos quais os usuarios armazenam, sincronizam e compartilham conteúdo, independentemente de plataforma, tamanho de tela e localização. É muito mais abrangente que a simples substituição do disco rígido do PC por armazenamento em uma nuvem. Uma personal cloud passa a ser o hub digital para as pessoas, onde estarão penduradas a ela(s) todos os seus dispositivos e conteúdos. Na minha opinião, permite criar a visão da computação ubíqua.
Uma consequencia direta será o decréscimo da importância individual dos dispositivos em troca da crescente significância do ecossistema, cujo centro de gravidade será a nuvem. Daí as guerras pelo domínio do ecossistema e da nuvem, onde iCloud e os dispositivos Apple ficam de um lado e os sistemas baseados em Android e Google Drive de outro. Em terceiro lugar, bem atrás no grid de largada, vem a Microsoft com seu ecossistema baseado em Windows.
Com a crescente adoção das nuvens pessoais, acredito que nos próximos anos veremos eclipsar o modelo atual, e mantemos nossos conteúdos em nossos PCs pessoais, modelo que provavelmente será mantido apenas em casos muito específicos. Já vemos muita coisa acontecendo com serviços como DropBox, iCloud e dezenas de outros, conquistando milhões de usuários. À medida que esses serviços forem gerando confiança, sua curva de adoção tenderá a se acelerar.
Por outro lado, abre-se todo um novo campo para a criação de aplicativos inovadores, basseados no conceito de nuvem pessoal e do seu implicito sincronismo com qualquer dispositivo de acesso, seja ele um smartphone, um tablet, um laptop ou uma TV.
O grande desafio será adotar o conceito My Cloud nas empresas… É cada vez mais difícil separar nossa vida pessoal da profissional e, como a nuvem pessoal passa a ser nosso hub de conteudo, como ignorar essa tendência dentro das corporações? Uma coisa é armazenarmos em um DropBox nossas fotos, músicas e vídeos das nossas férias, que pertencem a nós e a decisão e o eventual risco é nosso. Outra é armazenar nessas nuvens conteúdo que pertence às empresas para as quais trabalhamos.
Como é impossível segurar o tsunami que já está vindo, as empresas devem criar políticas de uso das nuvens pessoais, criando mecanismos que separem conteúdo profissional do pessoal e no caso de conteúdo profissional garantam que estejam criptografados. Também é possível criar políticas paliativas que impeçam, pelo menos por enquanto, o uso de nuvens como iCloud e DropBox para armazenar informações corporativas. Vale a pena ler este artigo, que mostra por que a IBM proibiu o uso do DropBox dentro de sua política de BYOD. Mas, por outro lado, é importante criar alternativas. A IBM criou um similar a um DropBox interno chamado de MyMobileHube.
Sabemos que dizer não ao movimento de consumerização é absolutamente inútil. Consumerização vai ganhar sempre. Portanto, a área de TI deve desenhar estratégias de convivência que permitam, ao mesmo tempo, oferecer dentro das empresas experiências similares à que os funcionários têm em casa, mas que garantam um nível de segurança adequado aos seus requisitos de compliance e auditoria corporativos.
Não é uma tarefa simples, mesmo porque muda o paradigma de domínio e o controle ao qual a TI está acostumada. Além disso, há uma profusão de dispositivos chegando a cada mês. O ritmo de inovações é muito acelerado. Portanto, a política deve ser pragmática, definindo critérios de aceitação de dispositivos e nuvens pessoais, não ficando presa a produtos ou a modelos de dispositivos específicos. Manter a política sob constante atualização e validação. Envolver as áreas jurídicas e de RH no processo, até mesmo porque em determinadas situações as informações corporativas que estão em nuvens pessoais podem estar em território estrangeiro, o que iria contra algumas normas regulatórias de determinados setores do negócio.
No final, é importante ter em mente que, mal entendemos e absorvemos o conceito de BYOD, já estamos às voltas como o BYOC. E depois dizem que ser gestor de TI não é um dos trabalhos mais estressantes que existem…



