Generative AI

6 jul, 2026

Web Agêntica: O que ainda saber sobre a ideia que fez a internet “mudar de lado”?

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Em 1984, quando William Gibson publicou “Neuromancer”, a internet da forma como a consumimos hoje ainda não existia. Por isso, foi surpreendente que o autor tenha conseguido criar uma peça de ficção que, aos poucos, se parece cada vez mais com a realidade.

A história é descrita por meio  de um mundo conectado a uma rede mundial de informações que é habitada tanto por humanos quanto por inteligências artificiais que navegam, tomam decisões e agem de forma autônoma.

Um disclaimer aqui. Neuromancer é um dos livros que inspirou a criação de Matrix, um dos filmes mais famosos sobre ficcção científica. São mais de 20 anos de lançamento e ainda hoje, Matrix gera dúvidas e encantamento. Fico pensando no dia que se tornar realidade. Por que, sim. A vida imita a arte e vice-versa. Quero ver o dia que eu vou estar falando com uma pessoa e ela, na verdade, vai ser um robô.

Apesar de parecer apenas uma bela peça de ficção científica quando lançada, o mundo caminhou em uma direção parecida com a descrita pelo autor e agora temos sinais de que algumas das ideias imaginadas por Gibson estão se tornando menos ficção e mais realidade.

Recentemente, um anúncio surpreendeu o mundo. Pela primeira vez, em 2026, cruzamos um marco histórico na infraestrutura da web. O tráfego proveniente de bots e agentes de IA já é maior que o tráfego humano na internet. Hoje, esse tráfego de bots já representa cerca de 57% da toda web.

De certa forma, isso já era previsível. Arrisco dizer que desde que colocaram o último parafuso na primeira máquina que começou a otimizar o trabalho humano, abriu-se um caminho irreversível para a automatização de tudo. Ou seja, a história da tecnologia é, em grande medida, a história de ferramentas assumindo tarefas que antes dependiam exclusivamente de esforço humano.

Vale lembrar que tudo isso começou com Alan Turing, que criou o primeiro computador, durante a segunda guerra mundial. De lá até aqui, o tempo foi curto… e a evolução foi gigante. É mágico ver isso, né?

Do conteúdo ao consumo digital

Veja, conceitos como a Teoria da Internet Morta eram encarados basicamente como conspiratórios em 2021, mas hoje parecem bastante plausíveis. Segundo essa hipótese, a maior parte do conteúdo, interações e até discussões nas redes sociais não seria mais gerada por humanos. A internet teria se tornado um “teatro digital”, onde usuários desavisados interagem com robôs a serviço de grandes corporações.

Acho que é esse o ponto que traz mais surpresa. Até então, pensadores sobre o tema focaram a discussão na produção de conteúdo, criativos, vídeos artificiais, desenvolvimento web, deepfake. Mas no ponto em que chegamos, parece que estávamos olhando para o lado errado.

O grande impacto não reside apenas no fato das máquinas estarem criando conteúdo, mas sim por estarem dominando o ambiente de navegação e consumindo o conteúdo em nosso lugar.

O fim do “fator humano” no desenvolvimento web

Durante os próximos meses, enfrentaremos um novo debate. Durante três décadas, praticamente todas as regras da internet como o desenvolvimento web, SEO, segurança (como os CAPTCHAs) e modelos de negócios partiram do mesmo pressuposto: do outro lado da tela existia uma pessoa.

Como ficará esse ambiente agora que uma parcela crescente do seu consumo é realizada por bots e agentes de IA?

A ascensão dos agentes de IA quebra esse pressuposto. Afinal, um único agente de inteligência artificial pode executar em minutos um volume de navegação que levaria dias para um ser humano. Assim, como ficarão as estruturas de monetização baseadas em publicidade e como as plataformas irão se adaptar para capturar não a atenção humana, mas a atenção artificial?

Diante disso, surgem desafios estruturais que chamam a atenção:

  • Monetização e Publicidade: Como sustentar modelos de negócio baseados em visualizações de anúncios (impressions) ou cliques (CTR), se o tráfego de consumo é artificial?

  • Métricas de Performance: Como auditar o tráfego real e qualificar os utilizadores num ecossistema onde a atenção em disputa é a dos robôs e não a das pessoas?

  • Otimização para Agentes (AIO): O foco deixa de ser apenas a experiência do utilizador final (UX) e passa a ser a indexação e a clareza dos dados estruturados para que os agentes de busca automatizados compreendam a aplicação.

O novo normal do mercado digital já começou

Diversos momentos históricos da internet mudaram tudo algumas vezes (como por exemplo a banda larga, o streaming, o mobile e as redes sociais). Mas a web agêntica (aquela dominada por IAs) irá desafiar os próprios fundamentos da engenharia de software, do marketing digital e irá bagunçar os modelos de negócios pré-estabelecidos hoje.

Não se trata mais de aplicar IA para otimizar processos internos, mas de preparar os sistemas para interagir e transacionar com outras IAs que representam o utilizador final.

A infraestrutura mudou, os padrões de busca mudaram e os modelos de negócios tradicionais estão sob forte pressão. O mercado digital já não é o mesmo de antes.

Você e sua empresa estão preparados para essa mudança?