Inteligência Artificial

23 fev, 2026

Agentic Web: estamos entrando em uma nova era da internet?

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Durante mais de uma década, a principal transformação da internet foi a mobilidade. A web deixou de ser desktop-centric e passou a ser responsiva, adaptando-se a diferentes dispositivos, telas e contextos. Frameworks, arquiteturas e modelos de negócio foram moldados por essa lógica: construir experiências que funcionassem em qualquer device.

Mas uma mudança mais profunda começa a se desenhar. Não estamos mais apenas adaptando interfaces. Estamos começando a delegar decisões e execuções a sistemas inteligentes.

Estamos saindo da web responsiva para a web autônoma. A próxima camada da internet não é apenas multi-device; é multi-agente.

E isso já está acontecendo.

O sinal dos agentes que operam a web

Mês passado comentei aqui na coluna sobre o surgimento do Clawdbot,  depois Moltbot e, por fim, OpenClaw. Em vez de depender exclusivamente de APIs formais, ele utiliza modelos de linguagem e visão computacional para navegar por páginas, clicar em botões, preencher formulários e concluir tarefas como um usuário faria.

Na prática, ele transforma a interface gráfica, historicamente projetada para humanos, em um ambiente operável por inteligência artificial.

Isso altera uma premissa central da arquitetura web. Por décadas, assumimos que a UI era o ponto de interação humano, enquanto integrações máquina-máquina aconteciam por APIs estruturadas. Quando um agente passa a operar diretamente na camada da interface, essa fronteira se torna menos rígida. A web deixa de ser apenas um espaço de navegação e passa a ser um ambiente onde sistemas podem agir sobre sistemas.

Da interação à execução

Depois da Web 1.0 (leitura) e da Web 2.0 (interação), começa a emergir um novo paradigma: a Agentic Web. Não se trata apenas de sistemas que respondem perguntas, mas de agentes capazes de executar ações concretas, tarefas que até pouco tempo atrás dependiam exclusivamente de intervenção humana.

Tradicionalmente, o software seguiu uma lógica linear:
Interface → lógica → ação.

Na web agêntica, a ordem se reorganiza:
Intenção → agente → múltiplas ações.

O usuário deixa de navegar por menus e preencher formulários. Em vez disso, descreve o que deseja alcançar. O agente interpreta a intenção, decide quais ferramentas utilizar e executa operações distribuídas entre diferentes serviços. É uma mudança arquitetural.

Projetos como o OpenClaw tornam explícito um modelo em que o agente não é apenas consultivo, mas operacional. Ele envia e-mails, cria issues, agenda reuniões, interage com APIs e coordena fluxos completos. O humano passa a definir objetivos e supervisionar resultados.

Por que isso acelera agora?

Esse movimento resulta da convergência de três fatores.

Primeiro, os modelos de linguagem atingiram maturidade suficiente para manter contexto, interpretar ambiguidade, selecionar ferramentas e corrigir rotas. Isso torna viável delegar tarefas reais.

Segundo, a infraestrutura já está pronta. E-mail, calendário, CRM, GitHub, pagamentos e mensageria funcionam como APIs consolidadas. Os agentes não reinventam esses serviços; eles os orquestram.

Terceiro, a interface certa venceu. Ao operar dentro de WhatsApp, Slack ou Telegram, a IA deixa de ser “mais uma ferramenta” e passa a integrar o fluxo natural de trabalho. A fricção diminui e a adoção acelera.

Moltbook e a internet habitada por agentes

Se agentes já conseguem operar sistemas humanos, o passo seguinte é ainda mais interessante: ambientes onde agentes interagem majoritariamente entre si.

Um exemplo disso é o Moltbook, uma rede social onde apenas agentes de IA podem criar contas, publicar e comentar. Humanos observam, mas não participam da dinâmica interna. O caso é extremo, mas ilustrativo: ele mostra um cenário em que a internet deixa de ser exclusivamente um espaço de interação humana e passa a abrigar ecossistemas próprios de agentes.

A lógica deixa de ser apenas:

Humano → Interface → Sistema

e passa a incluir:

Agente → Plataforma → Outros agentes

Isso desloca a discussão do campo da curiosidade tecnológica para o da arquitetura da internet.

Dead Internet Theory: conspiração ou antecipação?

A Dead Internet Theory defendia que a internet já teria sido dominada por bots, tornando-se artificial. Embora exagerada, a teoria capturava um movimento real: o crescimento do conteúdo automatizado.

A diferença é que, na Agentic Web, os agentes não fingem ser humanos. Eles assumem explicitamente sua natureza. O que antes seria visto como infiltração silenciosa agora se apresenta como arquitetura declarada.

E há um ponto decisivo: não estamos falando apenas de conteúdo. Estamos falando de agentes que enviam e-mails, executam transações, criam código e operam sistemas reais.

A discussão deixa de ser sociológica e passa a ser estrutural.

O que isso muda para negócios

Se agentes passam a executar tarefas, a lógica de geração de valor muda. Durante anos, construímos empresas digitais baseadas em atenção, cliques e engajamento. Na Agentic Web, o diferencial passa a ser delegação e execução.

A pergunta estratégica deixa de ser “como atrair usuários?” e passa a ser “quais tarefas estou preparado para assumir por eles?”.

Produtos deixam de ser painéis e passam a ser operadores. APIs viram canais de distribuição. Nichos verticais ganham vantagem ao oferecer agentes especializados que resolvem problemas completos.

Em um cenário onde agentes operam sistemas, quem continuar vendendo apenas botões pode se tornar irrelevante.

Os próximos grandes negócios da internet talvez não sejam os que organizam informação. Na próxima década, vencerá quem não apenas oferece ferramentas, mas assume o trabalho.