Dev (Back & Front)ARTIGO

O que há de errado com o cenário do HTML5?

Certa vez, tarde da noite, vi um tweet do engenheiro e guru do design de interação UI Bill Scott, da Netflix, fazendo um link com um artigo sobre o Netflix usando o “HTML5” para gerar “interfaces de usuário incríveis”. “OK. Vou dar uma chance”, eu pensei.

Ao ler o artigo, e outros como ele, eu notei alguns padrões que me preocuparam. São eles:

  1. se você buscar a palavra “HTML5” e trocar cada uma delas por “HTML” ou “a web”, os artigos poderiam ter sido escritos há 5 anos;
  2. não há menção nenhuma a uma implementação específica envolvendo elementos ou funcionalidades adicionadas ao spec do HTML5;
  3. apontam consistentemente para iteraçãoes mais rápidas como um benefício do HTML5.
  4. faz referências ao “HTML5 UI” e “UX”; e
  5. confundem sua instância customizada Webkit com “HTML5”

Algumas aspas notáveis destes textos:

“Obviamente, com as interfaces do HTML5…”

O que exatamente é uma “interface do HTML5? Canvas? Arrastar e soltar? O HTML5 é baseado em semânticas, e muito pouco foi adicionado a ele além de mensagens e elementos de mídia para “UI”.

“… tal animação geralmente envolve mudanças nas propriedades dos elementos na tela, como sua posição, tamanho, etc.”.                                   

Não é assim que toda animação funciona em qualquer linguagem?

“O sistema usa ferramentas como Ant, YUI Compressor e Juicer, e incorpora frameworks populares do HTML5 como o LESS, além do código específico do  Netflix”

O LESS não tem nada a ver com o HTML5. Ele é um pré-processador CSS e uma biblioteca dinâmica do CSS. O Ant é uma poderosa ferramenta de construção de automação. O YUI é uma sólida biblioteca UI baseada em JS construída pelo Yahoo. O Juicer é um conjunto de ferramentas do JavaScript. Nenhum deles é baseado no HTML5. Note que não há nenhuma discussão sobre o que o código específico do Netflix realmente significa.

“É por isso que o HTML5 traz a liberdade de criar experiências ricas, dinâmicas e interativas para qualquer plataforma que tenha um web browser.”

“É aqui que entra o HTML5 comes in. A tecnologia é entregue a partir de servidores Netflix cada vez que você carrega sua aplicação. Isso significa que podemos atualizar, testar e melhorar a experiência que oferecemos constantemente.”

“Nossos consumidores não têm que passar por um processo manual para instalar um novo software cada vez que fazemos uma mudança, ele simplesmente ‘acontece’.”

Veja o primeiro e o terceiro pontos acima. O HTML5 não tem nenhum efeito na rapidez com que você itera. A iteração é uma metodologia, não uma linguagem. Entendo que ela contorna o processo de atualização da loja de aplicativos, mas existe uma diferença entre “iteração” e “no nosso calendário”.

Com respeito ao “simplesmente acontece”, e “entregue a partir de servidores Netflix cada vez que você carrega sua aplicação”, é assim que toda a internet tem funcionado desde o primeiro dia.

“As capacidades do HTML5 são capazes de falar por elas mesmas, mas existem outras razões porque o HTML5 é a escolha certa para nós.”

Veja o ponto acima. “… capazes de falar por elas mesmas, ” é uma forma de dizer “Eu não sei como ele funciona nem o que ele faz.”

Você deve estar se perguntando, “qual é o problema? Pensei que tudo agora para você fosse sobre a web e o HTML5!”

E é, mas o problema número um é a má informação. A Apple tem total propriedade do código do Safari que é chamado de “HTML5”.  O Netflix acredita que a web pode pular o processo de revisão da Apple e permitir o uso do código em uma infinidade de dispositivos e chamá-lo de “HTML5”. Seus engenheiros não usam Flash, e por padrão, deve ser um “HTML5 UI”. Você vê um padrão aqui? Estamos pegando algo super poderoso e turvando as águas ao juntar um monte de falatório junto.

Uma vez eu estava ajudando um amigo que é super inteligente, mas não totalmente familiarizado com as últimas ótimas novidades do mundo do desenvolvimento web. Ele estava tentando descobrir como acionar algumas animações no CSS3 baseadas em alguns demos de uma fonte que estávamos analisando. Em um certo momento, ele me mandou essa mensagem:

“isso é frustrante… viva html5 ;)”

E não é culpa dele. É o tipo do jogo “telefone sem fio”, de checagem de fatos, que faz com que um artigo seja publicado em um blog de tecnologia esses dias. É assim que a má informação se alastra, e eventualmente faz com que o dinheiro mude de mãos. Fico petrificado ao pensar que executivos modernos estão operando baseados neste tipo de boato e falta de pesquisa.

Eu AMO o que o spec do HTML5 (agora apenas HTML) trouxe à tona e o tipo de coisas que podemos fazer. Eu apenas gostaria que as pessoas soubessem como descrevê-las e rotulá-las propriamente.

Para ser sincero, não é culpa dos autores, do Netflix, ou dos blogs de tecnologia. O W3C não conseguia nem se decidir sobre o que o “HTML5” era ou não era.

A questão é: esse tipo de conversa solta está ofuscando as linhas de algo muito bom, e minando quão poderosa e flexível a web realmente é, como plataforma de desenvolvimento. Faça seu dever de casa, leia os specs, e somente depois disso você pode falar sobre o “HTML5.”

Texto original em inglês de Kevin Suttle, disponível em http://commentedout.posterous.com/whats-wrong-with-this-picture/

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