DevSecOpsARTIGO

Abandono do Gnome Clássico, o futuro do Ubuntu

Talvez a pergunta que mais tome a cabeça dos usuários neste momento é: “ Como ficará o Unity?”. Afinal o Unity utiliza o Gnome clássico, sem ele, estará a Canonical e seu Ubuntu fadados ao fracasso?

A comunidade Linux recebeu, no final de 2012, a notícia que a equipe do Gnome não daria mais andamento na sessão Gnome Clássico. Esta notícia foi dada por Matthias Clasen, que também trouxe à tona tudo que ocorreu na discussão que antecedeu a decisão, pontos como a dificuldade em manter o desenvolvimento de dois ambientes distintos, o aparecimento a cada dia de mais bugs na versão clássica, além, é claro, de pontos diplomáticos como a situação em que ficaria as interfaces como o Unity, XFCE e LXDE e, por último e talvez uma das mais lógicas, o completo desvio de objetivos entre a sessão clássica e o Gnome 3.

Poderíamos aqui dizer que esta foi uma decisão polêmica, que ninguém esperava por tal apunhalada, mas estaríamos sendo sensacionalistas e, acima de tudo, mentirosos, já que estava mais do que lógico que a sessão clássica fugia totalmente do que hoje é buscado pela equipe do Gnome, e que o mesmo só acarretaria em mais dificuldades para a equipe, que já enfrentarão muitas com o surgimento do Gnome OS.

Mas talvez a pergunta que mais tome a cabeça dos usuários neste momento é: “ Como ficará o Unity?”. Afinal o Unity utiliza o Gnome clássico, sem ele, estará a Canonical e seu Ubuntu fadados ao fracasso?

Bem, é nesse momento que temos que começar a puxar fatos e momentos, palavras e objetivos traçados pela Canonical e hoje esquecidos pelos usuários, fazendo com que muitos, inclusive, pensem e falem que a mesma mudou o objetivo inicial do Ubuntu.

Há três anos, para ser mais exato em 29 de abril de 2010, ocorria o lançamento do Ubuntu 10.04 Lucid Lynx, logo após foram já anunciados alguns detalhes do próximo lançamento, que seria o 10.10. Ao trazer estes detalhes Mark Shttleworth disse que a Canonical investe muito do seu tempo na análise das características de seus usuários, ou seja, o que eles mais usam, como se comportam e dentro dessas analises ele afirmou que o foco do trabalho da Canonical no ubuntu era conectar o usuário à web o mais rápido possível.

Pois bem, hoje, passados três anos das palavras de Mark, temos no Ubuntu 12.10 o Unity 6, do qual o seu maior foco é a integração do usuário com a internet, a facilidade que o Unity traz ao usuário de usar simultaneamente conteúdo local e nas nuvens é surpreendente e inovadora. Você até pode não ser um fã do Unity, mas não pode negar que suas características são inovadoras e a possibilidade do usuário buscar imagens em seu HD, em sua conta no Facebook ou em seu Google Drive, torna a vida muito mais prática e “moderna”.

Você pode estar dizendo que todo este parágrafo fugiu do tema inicial, que trata da sobrevivência ou não do Unity sem o Gnome clássico, e a resposta é, não, não fugiu, o fato é que para compreendermos como a Canonical tem cada passo planejado, precisamos juntar as peças do quebra cabeça e para isso temos que voltar várias vezes ao passado. Este parágrafo anterior demonstrou que Mark S. sempre teve o foco na ligação usuário e internet, um modo do usuário estar conectado o mais rápido possível, da forma mais prática possível. Esta foi conquistada, apesar do mesmo afirmar alguns meses atrás, que ainda não é metade do que ele pretende.

Agora precisamos lembrar de outro ponto importante ainda ocorrido em 2010, foi nesta época que a Canonical apresentava sua própria interface gráfica, o Unity, até então focada apenas para netbooks.

primeira aparição Unity
Primeira aparição do Unity, nas versões para Netbooks

Ao final do ano de 2010, muitas notícias em portais voltados ao mundo Linux apontavam um desentendimento entre a equipe do Ubuntu e do Gnome, sendo que o que relatava-se é que os objetivos da equipe do Gnome diferenciavam-se dos da Canonical. E em 13 de Outubro de 2011 a Canonical apresentava o Unity como padrão para o Ubuntu, deixando de existir uma versão independente para netbooks, passando a ser um único produto.

Mais uma vez a Canonical mostra que seus passos podem ser arriscados, mas planejados, e a chegada do Unity primeiramente ao mundo dos netbooks, foi uma forma de novamente, estudar seus usuários antes de finalmente poder traçar totalmente seus objetivos, sem estar presa aos da equipe do Gnome.

Ainda no 11.10, o Unity foi alvo de muitas criticas, já que ele aparecia muito cru, perto do que hoje conhecemos, e novamente Mark foi à público dizer que o Unity ainda tinha muito para mostrar e que sua próxima LTS seria a melhor de todas, carregando o Unity já melhor trabalhado. E não podemos dizer que Mark errou – a LTS 12.04 chegou e conseguiu consolidar o uso do Unity, inclusive tendo uma queda das reclamações em fóruns, lugar comum para encontrarmos usuários enfurecidos.

Mas nada consegue parar Mark e sua mania de profetização e dessa vez o mesmo prometeu que a próxima LTS, 14.04, será a melhor plataforma do Mundo. Ao fim fica difícil acreditar que uma empresa e um empresário com tantas certezas, objetivos e determinações, no meio de tantos projetos como o Ubuntu para Android, o Ubuntu TV, os menus inteligentes, sejam pegos de surpresa por uma decisão que toda a comunidade já esperava.

Agora se a Canonical vai trabalhar em cima do XFCE (dificilmente, mas é uma opção), se vai fazer seu próprio Fork, ou manter-se desatualizada e parada no tempo com a última versão do Gnome Clássico, coisa que obviamente não acontecerá a longo prazo, fica difícil dizer, mesmo conhecendo muito bem toda a história da Canonical e de seu fundador, assim como tudo que já foi traçado até hoje, a Canonical é uma empresa que pensa longe e aposta com “vontade”, conseguindo sempre pegar-nos desprevenidos em nossas “premonições”. Ainda assim, aqui do Linux Centro, acreditamos que até a LTS 14.04 o Ubuntu terá sua total independência sobre interface gráfica e uma aposta no desenvolvimento próprio do ambiente como um todo, não seria um devaneio total, perante as atuais decisões da Canonical.

Ubuntu TV, mais um produto que mostra que o poder do Unity
Ubuntu TV, mais um produto que mostra que o poder do Unity

Não existe aqui intenções de supervalorizar nenhuma distro, ou mesmo de apontar fatos que não sejam verídicos, por isso o constante uso de datas. O único objetivo de nossa regular coluna é colocar alguns momentos de questionamento aos assuntos do cotidiano de nossa comunidade.

é escritor, compositor e viciado em tecnologia, especialmente o mundo do software livre, sobre o qual mantém um site especifico sobre o assunto. Possui diversas formações dentro do ramo e procura estar por dentro de todas as novidades. No twitter, é @thiagoholmes.

Ver perfil