Todo desenvolvedor, hoje, usa a Nuvem. Aliás, todo mundo – desenvolvedor, usuário, empresas grandes e pequenas. Segundo Luli Radfahrer, professor de Comunicação Digital na ECA-USP, “rodar na Nuvem é tão obrigatório quanto ter um perfil nas redes sociais”. Nessa nova onda que estamos surfando, tudo parece lindo. Há disponibilidade de espaço, que nunca foi tão barato e acessível, há escalabilidade.
E o efeito prático disso é a produção maciça de dados. “Para se ter uma ideia, em um dia do século XXI, produzimos três vezes o equivalente a tudo o que foi produzido até a década de 80”, diz Luli. Com uma horda de bilhões de usuários, todos a postos para compartilhar fotos, vídeos, blogs, reblogs, acesso móvel e experiências imersivas, sem falar no e-commerce, nas empresas, em todos os negócios online, o consumo de recursos é alto.
Maior a produção, maior a preocupação – e a ansiedade com questões importantes de segurança e com o consumo de energia é gigantesco –, bem como as pilhas de lixo eletrônico. “Carros poluem, mas a gente reusa a matéria prima. Isso não acontece com os eletrônicos – que giram mais rápido e têm potencial muito mais tóxico para o meio ambiente”, diz Luli.
A Nuvem polui
O Greenpeace concorda com Radfahrer. Único instituto a divulgar os impactos da tecnologia no meio ambiente, eles publicaram, em 2012, o estudo “Quão limpa é sua Nuvem?”.
As conclusões fundamentais do estudo?
- As três maiores empresas que constroem negócios em torno da Nuvem, Amazon, Apple e Microsoft, se apoiam em fontes “sujas” de energia para abastecer suas estruturas. Yahoo! e Google lideram a inovação no setor, seja priorizando fontes limpas de energia para expandir suas nuvens, como investindo diretamente em fontes de energia renovável.
- O Facebook, o principal destino dos mais de 800 milhões de usuários no mundo, se comprometeu a investir mais em energia limpa. O primeiro grande passo nessa direção foi dado com a construção de um novo datacenter na Suécia, que pode ser totalmente abastecido com energia limpa.
- A concentração dos datacenters em determinados locais (principalmente Estados Unidos) tem impacto significativo no consumo de energia elétrica e na administração de suas fontes de produção. Se os novos equipamentos forem instalados nos mesmos lugares, fica cada vez mais difícil migrar os investimentos e as comunidades que os cercam para fontes limpas de eletricidade.
- A Akamai usou, no ano passado, o padrão de Eficiência de Uso do Carbono (Carbon Use Eficiency – CUE, em inglês). Ela foi a primeira e única empresa de TI a fazer isso. Já é um resultado da pressão ambientalista por tecnologias que sejam mais eficientes e menos poluentes. Há que prestar atenção também nisso.
- Apesar das evidências, as empresas vendem a Nuvem como “verde”, mas não são transparentes a respeito do consumo de seus datacenters e avaliam muito mal seu impacto ambiental.
- As comunidades de hardware e software deram sinais de compartilhar, no ótimo formato open source, as melhores práticas para que os novos equipamentos e programas tenham projetos mais eficientes.

Luli concorda em gênero e grau com o estudo do Greenpeace. “Isso é o efeito colateral de uma ideia boa”, diz. Já Antonio Santos, especialista de Solução de Segurança da Oracle do Brasil, acha que a Nuvem usa melhor os recursos, porque acontece uma otimização do hardware em larga escala.
Só que ninguém sabe exatamente o tamanho da Nuvem. O Greenpeace justifica que a falta de precisão se deve ao eterno crescimento dos negócios online, aos muitos aparelhos usados para acesso e à mudança rápida tanto da tecnologia como dos modelos de negócio. Mas a grande dificuldade é ter informações das empresas. Num ramo competitivo, em que os negócios exigem rapidez, segurança e sigilo, ninguém quer contar o que usa e como usa.
De qualquer jeito, a Nuvem, em 2007, já era a quinta maior fonte de consumo de eletricidade no planeta – 623 bilhões de kwH. O Facebook consumiu, em 2011, cerca de 509 milhões de kWh. Em 2010, o Google consumiu dois bilhões de kWh. Repare nas datas: não, ninguém consegue consolidar a informação de um jeito uniforme!
Graças à pressão ambientalista, no período de 2005 a 2010, em vez do aumento previsto de consumo (100%), a tecnologia aumentou o uso de energia elétrica em 56%. O que é paradoxal é que as empresas de TI estão mudando o mundo e a economia, mas ainda não começaram a inovar no uso de energia.
Essa é a questão lá no front end. No back end, a coisa também não é simples. Segundo artigo do Datacenter Knowledge, a infraestrutura de todos está sendo muito mais requisitada. Exatamente por isso, é preciso ter maleabilidade e ser capaz de uma administração eficiente dos dados, principalmente se o negócio tiver um lado na Nuvem. Já existem soluções específicas para oferecer sistemas mais eficientes e atender às novas demandas tanto da tecnologia como dos negócios.
Mais que isso: a Nuvem é capaz de oferecer todas as demandas do seu projeto, mas ela ficará de pé? Quem faz Internet sabe que nem só de alegria se vive. Haja estômago e sangue frio para lidar não só com os ataques e com a disponibilidade e, no Brasil, com a infraestrutura da comunicação, que está sujeita a panes generalizadas e à falta de sinal em determinadas regiões.
Segurança é páreo duro
Antonio e Luli chamam a atenção para outro lado obscuro da Nuvem: a segurança. Segundo Luli, a grande questão é que a facilidade de armazenamento cria um efeito cascata – você salva os mesmos dados em muitos lugares. “Como não existe uma dimensão física do que estão fazendo, há uma redundância de informação enorme. E isso prejudica a segurança dessa informação”, explica Luli. Com a facilidade de acesso da informação, os usuários tendem a relaxar com a segurança – “afinal, o que eu não posso pegar, não existe”, diz Luli.
Antonio Santos, especialista em segurança da Oracle, ressalta que sempre é preciso pensar segurança de acordo com os três pilares: confidencialidade, disponibilidade, integridade. “A gente não deveria saber onde está a Nuvem, e esse é um dos pontos negativos: você confia seus dados, seu negócio a um fornecedor. Como essa informação será tratada?”, questiona.
Em geral, todos se prendem à confidencialidade (sigilo dos dados colocados na Nuvem). Antonio diz que nenhum sistema é seguro se não pensar nos três pilares juntos. “Disponibilidade significa: o provedor de serviços consegue manter o serviço disponível 100% do tempo? As leis locais permitem o seu negócio? Haverá questões específicas de acesso à informação?”, explica Antonio.
Integridade significa que seus dados estarão lá perfeitos, nada de corrupção. Para garantir isso, é preciso ter estrutura bem montada e a possibilidade de gerenciar usuários, para definir os usos e os limites de cada perfil que tem acesso à Nuvem.
A insegurança está em todos os ambientes que frequentamos online. Basta coletar rapidamente as notícias sobre vazamento de dados de serviços – tanto gratuitos quanto pagos. Sony, Evernote e Apple são apenas três de muitos que perderam parte dos dados de seus usuários. No começo de julho, foi revelado um caso de vazamento maciço de dados do Facebook.
Se a Nuvem é flexível, ela também pode ser privada. E a criptografia que temos já garante uma certa segurança às informações que precisam de sigilo. Antonio lembra que os funcionários vão levar seus dispositivos para o trabalho. Ao notebook juntaram-se smartphones, tablets, modems. A segurança dos dados envolve, também, o uso desses equipamentos (e das informações da empresa) dentro e fora do trabalho.
Segundo Cezar Taurion, é preciso mudar o raciocínio da TI: “A própria consumerização gera a força necessária para a mudança de uma TI rígida e controlada por um departamento específico, como temos hoje, para approaches mais abertos, colaborativos e flexíveis, nos quais a TI passa a ser uma conselheira dos usuários”, diz (veja mais aqui).
Além disso, o Bring Your Own Device (BYOD) traz consigo a sua própria Nuvem, que Cezar chama de BYOC (Bring Your Own Cloud). Quem nunca colocou arquivos da empresa num Dropbox que jogue a primeira pedra… “É cada vez mais difícil separar nossa vida pessoal da profissional e, como a nuvem pessoal passa a ser nosso hub de conteúdo, como ignorar essa tendência dentro das corporações? Uma coisa é armazenarmos em um DropBox nossas fotos, músicas e vídeos das nossas férias, que pertencem a nós, e a decisão e o eventual risco é nosso. Outra é armazenar nessas nuvens conteúdo que pertence às empresas para as quais trabalhamos”, escreve o especialista neste link.
Se a tecnologia muda, a TI tem que se repensar
O que TI deverá proativamente desenvolver? Primeiro, quebrar paradigmas arraigados. Por exemplo, considerar que plataformas sociais não são distração, mas sim a base para o aumento da produtividade. As pessoas estão cada vez mais interdependentes e conectadas, e trabalham de forma colaborativa. Impedir isso implica baixar a eficiência das empresas.
Também é preciso entender que as informações internas são apenas um pequeno estrato do total de informações que os funcionários e executivos poderiam usar para efetuar suas tarefas e tomar decisões. As empresas usam em média 0,5% do total de informações, internas e externas, que de alguma forma podem ser úteis ao negócio. O conceito de Big Data se encaixa neste aspecto.
A força de trabalho estará cada vez mais móvel, e dispor de dispositivos para acessar informações não deverá mais ser privilégio de alguns, mas essencial a todos os funcionários para efetuar as suas tarefas cotidianas. Mobilidade será a regra, e não a exceção.
Por fim, redesenhar seus aplicativos para que eles se tornem plataformas onde as interfaces sejam desconectadas dos processos embutidos neles. Criar APIs que permitam aos usuários criarem suas próprias interfaces e customizar suas experiências, necessidades pessoais e preferências de uso. O modelo “one size fits all” para as interfaces propostas pelos modelos de aplicativos atuais, tipo ERPs, terá que ser repensado. Provavelmente o modelo de app store interna deverá ser o modelo que irá prevalecer na oferta de soluções para os usuários.
Sem fronteiras, pero no mucho
A Nuvem, essa linda, tem um lado não apenas sujo, mas também feio, ao violar os direitos das pessoas. Um exemplo é o paradoxo da localização ao usar um serviço na Nuvem. Conforme a rede vai conectando o mundo, os datacenters não são tão internacionais assim – e nem os negócios.
Afinal, a Nuvem obedece a qual lei? Em que é preciso se basear na hora de escolher um serviço de cloud computing para a sua empresa? E, sendo um usuário “da web”, e sendo a web “mundial”, por que alguns serviços de streaming não podem ser acessados em determinados países? Os usuários de Internet no Brasil vivem isso constantemente, com o Pandora, por exemplo. Comprar também é um mistério, por que, afinal, será que o gadget sonhado passará pela alfândega?
O mesmo se aplica aos dados: a lei do país onde estão os datacenters vale para os dados. Não é à toa que ninguém sabe onde estão os servidores do Pirate Bay e de outros serviços de torrent. E mais: em nome da segurança nacional, os governos também provam que podem, sim, invadir a privacidade não só de seus cidadãos, mas também dos cidadãos de outros países.
Apavorou? Ótimo. Porque nem tudo é mansidão e maravilha no mundo da Nuvem. A gente ganha flexibilidade, extensão de poderes, arquivos sincronizados, sistemas que podem ser modulados de acordo com a necessidade. E precisa ter cuidado dobrado com os dados, a forma do tráfego, o gerenciamento de TI. Sejam bem-vindos ao século XXI, ele promete uma enorme revolução na vida humana, mas está exigindo o sacrifício de nossas certezas e a inovação de um jeito nunca antes navegado.
Por Lucia Freitas, para Revista iMasters




