DevSecOpsARTIGO

Filosofando um pouco sobre cloud computing

Outro dia estava preparando uma apresentação e me deparei com um estudo do Gartner, chamado “CIO Review”, que mostrava as prioridades dos CIOs em 2009 e 2010.

Em 2009, cloud computing aparecia em 16° lugar na lista destas prioridades e no ano seguinte, 2010, já aparecia em 2°. Mudou da água para o vinho em um ano! O tema cloud computing está hoje na mídia, seja especializada ou não, na TV e nas conversas entre quaisquer profissionais de TI e mesmo de outras áreas.

Muitas vezes olhamos o cuto prazo e esquecemos de ver o todo. Ao olhar para a frente com a cabeça no modelo atual, podemos incorrer em sérios erros. Como exemplo, a frase de Gottlieb Daimler em 1901, quando disse “There will never be more than a million cars on earth – there will never be enough chauffeurs”. Ou a de Harry M. Warner, presidente da Warner Brothers em 1927, quando falou “Who the hell wants to listen to actors speaking?”.

É salutar pensar um pouco à frente e imaginar que impactos cloud computing trará para área de TI e para as empresas, sejam elas provedoras de tecnologias e serviços de TI, sejam elas consumidoras destes serviços e produtos.

Vamos “filosofar” um pouco sobre isso. Tentando nos libertar do modelo mental cliente-servidor, centrado no atual, sólido e consagrado (e aparentemente imutável) modelo de negócios on-premise, ou seja, a empresa adquire e implementa seu ativo de hardware e software.

Disrupções e revoluções tecnológicas destróem indústrias solidamente estabelecidas e criam novos negócios. Os automóveis fizeram as carruagens desaparecerem. As máquinas de escrever, uma sólida indústria que cresceu e se consolidou no século XX foi destruída nos últimos 20 anos do século com o aparecimento do PC. Todo seu ecosistema, como a indústria de papel carbono, cursos especializados e a profissão de datilógrafo, simplesmente desapareceu.

A indústria de TI está diante de uma disrupção de grande magnitude. Cloud já está fazendo sentir seu efeito em diversos segmentos, como:

  • Os data centers, que começam a ser redesenhados para suportar o modelo de nuvem híbrida, intensamente baseada em virtualização e automação, interagindo com nuvens públicas. Eles não vão desaparecer. Mas serão distribuidos com parte sendo constituída de servidores próprios (capex) e parte alocados em nuvens públicas (opex). O modelo de data center será altamente on-demand, automatizado e elástico e, para isso, deverá estar conectado a nuvens públicas.
  • O surgimento dos tablets e smartphones, deslocando o PC de sua posição dominante para a de mais um elemento de acesso às nuvens. Empresas fortemente baseadas em PCs vão perder sua importância.
  • Maior demanda por capacidade de banda, uma vez que os acessos móveis vão exigir acesso a todo conteúdo armazenado em nuvens, de textos a fotos e vídeos.
  • Novas funções em TI, com ênfase em uso de recursos em nuvens e não mais em sistemas on-premise, cliente-servidor.
  • Indústria de software se deslocando para um novo modelo de precificação, SaaS, baseado em modelo Pay-as-you-go. Os atores desta indústria têm que se transformar de vendedores de produtos para fornecedores de serviços, onde o software passa a ser meio de entrega do serviço.

Aparecerão mudanças estruturais à medida que a área de TI passa a ser cloud-based. Empresas de pequeno a médio porte podem simplesmente deixar de ter seu próprio setor de TI, passando a usar exclusivamente nuvens públicas.

Empresas de grande porte deixarão de ficar unicamente concentradas em deter e gerenciar 100% do seu ativo de hardware e software para atuarem de forma orquestrada, sincronizando suas soluções distribuídas, tanto em nuvens privadas como em nuvens públicas.

Um exemplo de mudança de skill será a função de planejamento de capacidade, que em vez de unicamente avaliar o trinômio desempenho/capacidade/custo do seu ativo de hardware passará a avaliar também o desempenho/capacidade/custo dos serviços ofertados pelos provedores de nuvens.

Com o amadurecimento do modelo de cloud, as expectativas tenderão a se deslocar da redução de custos e elasticidade na alocação dos recursos computacionais para possibilidade de criação de novos modelos de negócios, explorando as significativas diferenças de velocidade e agilidade que o modelo de nuvem traz em seu bojo.

Como exemplo, o banco americano, o Citi, implementou uma nuvem privada para seu ambiente de desenvolvimento e testes. Eles tem uma equipe de cerca de 20.000 desenvolvedores e o tempo médio de provisionamento para os servidores para o ambiente de teste, no modelo tradicional, estava em torno de 45 dias. Com cloud caiu para 20 minutos. Além disso, conseguiram otimizar o trabalho dos administradores de sistemas, que antes era de 50 servidores por profissional e hoje a relação é de um administrador para mais de 600 sevridores. Imaginem o ganho em time-to-market quando você tem milhares de solicitações de novos sistemas e modificações em seu pipeline de desenvolvimento.

Outras mudanças deverão acontecer. Acredito que ao invés de grandes contratos de outsourcing começaremos a ver contratos menores e mais dinâmicos (curta duração), muitas vezes envolvendo diversos provedores de nuvens.

A infraestrutura de TI será cada vez mais vista como Utility e assim veremos o modelo IaaS evoluindo para IUS — ou Infrastructure as a Utility Service. As empresas de TI que não se adaptarem ao modelo de cloud tenderão a desaparecer. Deverão ser “Netflix” (que aliás roda em nuvem pública da Amazon) ao invés de tentarem se manter como “Blockbuster”.

O resultante de todas mudanças é o surgimento de uma maior demanda por profissionais que atuem como consultores ou advisors para cloud computing, ajudando a criar modelos de integração e governança que envolvam múltiplos fornecedores de nuvens.

Enfim, o modelo de cloud chegou para ficar. A cada dia vemos seu amadurecimento e novas e mais robustas ofertas surgindo no mercado. Já vemos sinais de consolidação deste mercado, com uma intensa atividade de aquisição de empresas de cloud por parte das empresas tradicionais de TI.

E provavelmente, em um futuro não tão distante assim, o label cloud desaparecerá. Será simplesmente computing. Cloud será inerente.

Até a próxima!

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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