Gestão Dev & TIARTIGO

O ortopedista e o analista de sistemas

Era
a parte chata do cargo… Naquela tarde eu comunicava ao estagiário que ele não
seguiria conosco. Que seriam suas últimas semanas na empresa. Seu desempenho
até ali não tinha sido satisfatório e não demonstrava sinais de melhora, mesmo
após vários alertas anteriores. Ele estava muito desmotivado.

Nossa
atividade era essencialmente de pré-venda de soluções de TI. Exige grande
interação com o cliente, poder de argumentação, algum talento para
apresentações. Aqueles profissionais da “plataforma PowerPoint”, praticamente um
sistema operacional, onde tudo funciona.

A conversa
tinha tudo para ser rápida, mas para minha surpresa, ele confidenciou sua
desilusão com a área, decidido a trancar a matrícula no curso de Ciência da
Computação e pensar em outra carreira, de preferência, fora da área de exatas.

Que barra! Eu
tinha só que comunicar o encerramento de um contrato “sem vínculos
empregatícios” e estava terminando por decretar o fim da carreira de um
potencial colega da área de TI? Abri meu coração informático para ele e pedi
que pensasse melhor sobre aquilo e desse mais uma chance para a área. Ele ouviu
pacientemente aquele meu sermão improvisado até o final.

“A área de TI
não se resume a estas tarefas e rotinas onde você não se encontrou. É uma
carreira que começou e permaneceu durante muitos anos como algo improvisado,
desbravada por matemáticos, engenheiros e até pessoas com formações “nada a
ver”. Viram-se de uma hora para outra com aquele mico na mão. Não existia o
profissional de TI propriamente dito. Ele veio depois. Mas, felizmente, da
mesma forma que avançou vertiginosamente a tecnologia, também caminhamos a
passos largos para a profissionalização. O que antes parecia terreno apenas
para excêntricos que “conversavam com máquinas” hoje acomoda também pessoas
muito mais versáteis, mais ligadas ao negócio, aos resultados práticos que TI
pode trazer para as organizações, em suas mais diversas áreas, seja na lida com
números, pessoas, informações, mercadorias ou máquinas.

É certo também
que conviver com esta velocidade toda nos deixa muitas vezes angustiados. Você
vai dormir “achando que está na crista da onda” e acorda no dia seguinte sentindo-se
um dinossauro desatualizado, próximo da extinção… Do seu emprego!

Mas se é
humanamente impossível ser sempre o maior especialista naquela linguagem de programação
do momento e ainda dominar cada nova tecnologia de rede ou novo sistema
operacional no dia seguinte ao lançamento, num esforço colossal de “manter sua
empregabilidade”, melhor é você escolher sua praia na imensidão de
possibilidades que a área oferece e estabelecer-se lá. Mas claro, sem se
descuidar de sua atualização constante. Sim, o profissional de TI é acima de
tudo alguém que nunca está pronto, formado. Você vai ter que estudar pra
sempre. Acostume-se.

E com um
mínimo de predisposição, que sei que você tem, vai se achar e, quem sabe, alcançar
a tão almejada satisfação profissional. Há trabalho em área comercial,
pré-vendas (já vimos que não deu certo para você…), pós-venda, produção,
desenvolvimento, projetos! Treinamento? Vai dar aula! Foco em marketing ou
logística… Multiplique-se pela variedade de ambientes: Windows, Linux, tantos
Unix, alguns raros AS/400, mainframes, plataforma Web pra todo lado! Java ou
.NET? Pense nos ERPs, quantos módulos? Já ouviu falar em virtualização? E onde vai
trabalhar? Qualquer lugar! Hoje tem TI lá na farmácia da vila. Na outra ponta,
os grandes bancos são praticamente gigantes de TI que nas horas vagas lidam com
assuntos financeiros.”

E
foi como programador que ele se encontrou. Foi alocado em um projeto muito
interessante algumas semanas após aquela última conversa e deslanchou. Alguns
meses depois de sua saída tivemos um contato e ele comentou sobre seus momentos conosco, que lhe haviam sido muito importantes e que eu o havia ajudado. Pensei comigo:
“Agradeça ao meu ortopedista…”

Também
já passei pelas inquietações daquele estagiário. Angustiado, desencontrado,
sentindo-me incapaz de acompanhar o ritmo frenético da tecnologia, negócios e
nível de exigência daqueles clientes das duas grandes de TI nas quais estagiei.
Foi aí que entrou em cena o meu ortopedista e me fez refletir sobre “a missão” de um pobre analista de sistemas.

Parando de
achar normais aquelas insistentes dores nas costas, procurei o especialista. O
diagnóstico dele foi selado no momento que “confessei” minha ocupação. “Bom meu
rapaz, esse é um mal da sua profissão… não há muito que se fazer. Má postura,
excesso de horas de trabalho, sedentarismo…”. Ele poderia ter parado por ali,
me mandado para fisioterapia ou mesa de cirurgia logo, mas continuou. “Pois
é… A carreira do pessoal de informática é muito curta, como a dos jogadores
de futebol. Fica-se velho e obsoleto muito cedo…”.

Meu
Deus!!! Se antes estava pessimista, agora estava condenado. Minha corretora da
previdência privada foi quem se divertiu. “Quando vai ser sua idade de saída do
plano?”. Sei lá! O mais curto possível… Daqui 4 anos, pode?

Fui
bem conservador, mas mesmo assim a minha saída do plano de previdência ainda vai
levar uns 20 anos. Daquelas palavras do ortopedista, somadas a muita reflexão e
observação, formei minhas teorias sobre a carreira. E com elas acredito que
tenha aberto caminho para alcançar maior maturidade e satisfação profissional e
pessoal. Por isso sou grato a ele pela provocação.

Mas que fique ele
sabendo que, se em algum momento eu não estiver mais “em forma” para atuar
dentro das quatro linhas, certamente poderei ser muito útil em áreas da equipe.
Vou me preparar pra isso. É a renovação natural que também terá que acontecer
em TI. A “molecada” que vem aí está quase saindo da maternidade com usuário e
senha já. E nós seremos seus próximos treinadores, olheiros, conselheiros, garotos-propaganda,
dirigentes. Vamos usar nossa experiência e maturidade para orientar e formar bons
novos times de profissionais neste esporte tão dinâmico e desafiador que é…  “a informática!!!”. E viva o rei Pelé que
segue por aí, na órbita dos gramados!

é Gerente de Negócios da DocPath Document Solutions Brasil.

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