No Brasil de hoje, 38% de nossos alunos universitários estão sendo educados virtualmente. Esse número tende a crescer para os próximos anos. A questão não é saber se a educação está sendo democratizada, e sim saber como está sendo aplicada a qualidade dessa educação virtual. A tecnologia e a modernização devem, sim, avançar e bater na porta dos mais carentes, mas elas devem seguir conceitos de qualidade por meio de um avanço consciente que visa à qualidade do ensino, que deve respeitar o crescimento intelectual do cidadão no intuito de construir um país mais desenvolvido.
Esses pontos são somente um mero discurso diante da realidade. Hoje, cursos virtuais viraram uma febre autorizada pelo próprio governo federal. Na educação à distância, há várias dimensões de avaliação: corpo social (professores), infraestrutura e planejamento avaliativo da instituição. Polos a distância devem possuir biblioteca física, material impresso e laboratório, além da biblioteca virtual. O fato de incluir na avaliação essa questão é simples; o problema é a questão operacional e de fiscalização do Ministério da Educação. Hoje, muitas ONGs estão sendo autorizadas por terceiros responsáveis para divulgação dessa modalidade de educação, ou seja, por meio virtual. O fato é que se fala em nome de uma instituição e se aplica a metodologia de outra. Não há um controle generalizado sobre essas instituições, tanto de ensino como ONGs. As contabilidades se misturam e a fiscalização é precária.
O ensino superior é a base para a construção do País, por meio de pesquisas, troca de experiência, vivência universitária e política. Por meio virtual acaba-se com o conceito de universidade. Estamos transformando alunos mudos e tristes com esse modo operante de virtualização da educação. Estamos criando uma massa de despreparados para o mundo do trabalho. Os vestibulares pelo MEC são obrigatórios, mas agora viraram motivo de piada. Qualquer um que faz vestibular passa nas ditas faculdades virtuais. Não mencionando a faculdade, mas em São Paulo um semianalfabeto de 12 anos de idade foi aprovado para o curso de Pedagogia. Há vestibulares que são feitos pela internet, o chamado à distância.
Outro dado preocupante é que somente 8% dos estudantes brasileiros se dedicam às ciências tecnológicas, ligadas à área das exatas. Estamos concretando mentes ao facilitar ensino de baixa qualidade virtualmente. Nossos estudantes brasileiros estão ficando preguiçosos e desprestigiados para o mundo do trabalho. Não temos uma fiscalização efetiva por parte do Estado brasileiro. A quem o aluno vai recorrer sobre a má qualidade para o fechamento do curso?
As delegacias do MEC representavam o Ministério da Educação nas Unidades federadas por meio de seus fiscais. A extinção das DEMECs, em 1997, foi por razão orçamentária e estrutural. Restaram representações somente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, chamadas de REMECs, com poucos funcionários, sem poder efetivo de fiscalização. Numa reunião em dezembro de 2007, com Procuradoria Geral da República, os representantes do MEC afirmaram aos procuradores federais Mariane Guimarães de Mello Oliveira e Peterson de Paula que o MEC não tem intenção de reabrir as delegacias, e sim criar setores supervisionais. Os membros do MPF cobraram dos representantes do MEC a existência de um interlocutor em cada Estado da Federação para resolver os problemas que porventura ali venham a ocorrer. Já faz mais de um ano que a reunião aconteceu e soluções não foram tomadas.
A educação brasileira não tem fiscalização, e se deixarmos a iniciativa privada cuidar dela, teremos baixa qualidade, pois o setor privado sempre vai prezar o lucro, e fazer educação de qualidade custa muito. Curso na faixa de R$ 195,00, por meio virtual, pode até ser barato, mas os empresários da educação ganham na quantidade. Um dos exemplos que podemos citar é o grupo Uninter do Paraná, que teve alguns de seus cursos mal avaliados pelo MEC, mas ainda não vimos fechamento de nenhum deles. Essa empresa fez um acordo com o Edusol (www.edusol.org.br). Hoje, essa ONG, por detrás de nomes reconhecidos, como a CNBB, ministra aulas em 17 polos e grande parte deles não possui as estruturas necessárias. Esse é um exemplo de tantos outros pelo Brasil afora. No vácuo da falta de fiscalização e de critérios mais rígidos, estamos transformando educados sem educação e quem mais perde é o desenvolvimento tecnológico do Brasil. Estamos criando uma massa de pessoas despreparadas.







