Dia desses durante uma conversa, um amigo – CEO de uma pequena empresa de serviços profissionais de TI -, perguntou como Cloud Computing afetaria seu negócio no futuro. Bem, naquele dia minha bola de cristal deu “tela azul”, mas mesmo assim conjecturamos alguns cenários que gostaria de compartilhar aqui.
Antes de mais nada, vamos esclarecer o que são serviços profissionais em Cloud Computing. São serviços de consultoria e/ou integração que ajudam os clientes a planejarem e implementarem estratégias de escolha e uso de computação em nuvem, além de operarem suas empresas nesses ambientes.
Na prática, os serviços profissionais em Cloud Computing são um subset das atividades comuns em serviços profissionais em TI. Esses serviços poderão ser de:
- consultoria, como planejamento estratégico para escolha e uso de nuvens (públicas, privadas ou híbridas)
- integração (integrar sistemas legados aos sistemas em nuvens ou migração de sistemas on-premise para nuvens)
- desenvolvimento de aplicativos desenhados para rodarem em nuvens usando tecnologias com Hadoop e plataformas (PaaS) como Azure, GAE (Google AppEngine) e force.com
- treinamento
- serviços de suporte para infraestrutura em nuvem, como monitoração da segurança e performance em ambientes IaaS, como o da Amazon
Um exemplo da necessidade de conhecimentos específicos são as funções Load balancing, CloudWatch (monitoração) e auto-scaling oferecidas pela nuvem da Amazon.
Nos EUA, esse mercado já se mostra bem promissor. O IDC estima que até o fim deste ano serão gastos cerca de 1,8 bilhão de dólares em serviços profissionais relacionados com Cloud Computing. A maior parcela refere-se a serviços de migração, integração e entrega de aplicativos em nuvens, com cerca de 600 milhões de dólares. Para 2014, estima-se que o valor total dos serviços profissionais em nuvem seja de 4,3 bilhões.
Aqui no Brasil ainda estamos engatinhando e os serviços profissionais em Cloud Computing estão restritos aos prestados pelas grande empresas de serviços, como os oferecidos pela IBM. A maioria dos projetos são de assessments e planejamentos, além de alguns projetos-piloto, típicos de oportunidades emergentes – como é exatamente o caso da computação em nuvem.
Minha expectativa é que nos próximos anos já tenhamos serviços mais focados na construção e deployment de ambientes de nuvens computacionais públicas e privadas, bem como o surgimento de empresas menores, especializadas em Cloud Computing. Muitas dessas empresas vão atuar junto a fornecedores de nuvens Open Source, como a Eucalyptus. Outras vão se aglutinar aos grandes provedores de nuvens e de tecnologias como a IBM e suas ofertas voltadas para construção de nuvens privadas, como o CloudBurst.
Vejo também uma boa demanda futura para serviços voltados ao desenvolvimento de aplicativos em nuvem, na modalidade SaaS. A maioria das empresas de software vão trilhar este caminho – “SaaSerização” dos seus produtos – e muitas delas precisarão de apoio em técnicas multi-tenancy.
Também vamos ver serviços voltados à implementação de processos de governança em nuvens, demanda ainda meio distante hoje. Como governança, imagino não apenas as questões de estabelecimento de níveis de serviços (SLA), disponibilidade, auditoria, segurança e desempenho, mas também orquestração de como gerenciar a coexistência de ambientes on-premise e em nuvens, sejam estas públicas e/ou privadas.
Esse ambiente híbrido vai apresentar fatores específicos na sua composição de custos, que geralmente não estão afeitos ao “conhecimento institucional” das áreas de TI tradicionais e que devem ser analisados nos estudos de road map de Cloud Computing.
Um exemplo: na maioria das organizações, nenhum workload é isolado mas relaciona-se com outros workloads. Na prática, os workloads apresentam interdependência de dados e processos. Isso pode significar que um workload X vai processar dados que foram criados ou modificados pelos workload A e B, e após o término dessa execução de X, serão processados pelo workload Y.
Agora imaginem que o workload X esteja em uma nuvem pública e os demais sejam aplicações on-premise. Os dados criados por A e B devem ser enviados à nuvem e, depois de seu processamento, esses dados devem retornar aos servidores da empresa para serem processados pelo workload Y.
Existem diversos custos que precisam ser analisados, como custos de transmissão de/para a nuvem, custos de armazenamento na nuvem e o próprio custo de processamento do workload X. Os provedores cobram por essas transmissões e armazenamentos. Por exemplo, nos EUA, a Amazon cobrava 15 centavos de dólar para cada GB transmitido em um volume de até 10 TB por mês – valor aplicado nos preços praticados em maio de 2010. Também registrava que o custo de gravar uma informação no serviço S3 era dez vezes maior que o custo de ler essa mesma informação.
Para efeito de comparação, o custo hora de um típico servidor virtual no EC2, “extra-large”, baseado em Linux era de 68 centavos de dólar. Muitas vezes, as análises de custos podem mostrar que os custos de processamento do servidor são uma parcela minúscula diante dos custos de armazenamento e transmissão de dados. Portanto, o desenho de uma solução híbrida deve considerar todos esses aspectos para se tornar uma opção adequada.
A performance em ambientes de nuvens também apresenta características próprias. Na Amazon, por exemplo, a variação de desempenho dos servidores no EC2 estão muito mais relacionados com a variação da carga de I/O que ao uso de memória ou capacidade de CPU. E, como vimos, monitoração do bandwith de dados transmitidos tem reflexo direto nos custos de utilização da nuvem e, portanto, devem ser monitorados de perto.
O que ficou claro na conversa é que Cloud Computing possibilita um novo paradigma de uso e entrega de TI e que será o modelo dominante para as próximas décadas. É uma evolução do modelo client-server atual e qualquer empresa de serviços profissionais de TI deve colocar esse modelo em seu radar.
Atualmente os conceitos ainda são recentes, os serviços estão concentrados em desenhos de road map e assessments, mas passaremos em breve para serviços mais operacionais como governança, suporte e desenvolvimento de aplicações. Ao final da conversa, a conclusão foi que os profissionais de TI devem começar desde já a desenhar seu próprio road map para ser um ofertante de serviços em nuvem e aproveitar as oportunidades de negócio que inevitavelmente surgirão.







