Este artigo foi publicado em 10/02/2015. Por ter sido considerado um dos melhores artigos de 2015, foi republicado hoje.
Aprendi Orientação a Objetos em Java. Inicialmente me foi ensinado a utilizar o construtor para inicializar todas dependências que o objeto necessita para funcionar. Sendo assim, o código da classe Sorteador é perfeitamente válido:
package di;
public class Sorteador {
private long limite;
public Sorteador(long limite) {
this.limite = limite;
}
public long sortear(){
double numero = Math.random()*this.limite;
return Math.round(numero);
}
}
Contudo, o problema dessa abordagem consiste na dificuldade de testar o método sortear. Como ele depende de um número aleatório, o máximo que se consegue é verificar se o sorteio se encontra dentro dos limites esperados, conforme código SorteadorTest:
package di;
import static org.junit.Assert.*;
import org.junit.Test;
public class SorteadorTest {
@Test
public void testSortear() {
Sorteador sorteador=new Sorteador(10);
long sorteio=sorteador.sortear();
assertTrue(sorteio>=0);
assertTrue(sorteio<=10);
}
}
Para contornar o problema, poderíamos componentizar com a finalidade de alterar o comportamento no momento de teste. Com esse objetivo, criei a interface Randomizador:
package di2;
public interface Randomizador {
double random();
}
Para continuar executando o comportamento original, criei a classe RandomizadorReal:
package di2;
public class RandomizadorReal implements Randomizador {
@Override
public double random() {
return Math.random();
}
}
Dessa maneira alterei o código do Sorteador . Com essa nova abordagem é possível alterar o componente de randomização utilizando o construtor sobrecarregado. Nessa caso, a dependência do objeto é injetada de fora para dentro. Por isso esse conceito é chamado de “Inversão de Controle” ou também “Injeção de Dependência”:
package di2;
public class Sorteador {
private long limite;
private Randomizador randomizador;
public Sorteador(long limite, Randomizador randomizador) {
super();
this.limite = limite;
this.randomizador = randomizador;
}
public Sorteador(long limite) {
this(limite, new RandomizadorReal());
}
public long sortear(){
double numero = randomizador.random()*this.limite;
return Math.round(numero);
}
}
Com o código modificado é possível escrever um teste com mais controle. Para isso, basta trocar o componente RandomizadorReal pela classe RandomizadorMock, conforme código a seguir:
package di2;
import static org.junit.Assert.*;
import org.junit.Test;
class RandomizadorMock implements Randomizador{
public double retorno=0;
@Override
public double random() {
return retorno;
}
}
public class SorteadorTest {
@Test
public void testSortear() {
RandomizadorMock mock=new RandomizadorMock();
Sorteador sorteador=new Sorteador(10, mock);
mock.retorno=0;
long sorteio=sorteador.sortear();
assertEquals(0, sorteio);
mock.retorno=0.5;
sorteio=sorteador.sortear();
assertEquals(5, sorteio);
mock.retorno=0.54;
sorteio=sorteador.sortear();
assertEquals(5, sorteio);
mock.retorno=0.56;
sorteio=sorteador.sortear();
assertEquals(6, sorteio);
}
}
Esses objetos que se utilizamos para substituir componentes na hora de testes costumam ser chamados de Stub ou Mock. Foi com esses conceitos em mente que migrei para a linguagem Python.
Nela posso escrever classe similar a primeira versão de Sorteador:
from random import random class Sorteador(): def __init__(self, limite): self.limite = limite def sortear(self): return round(self.limite * random())
Poderia empregar a mesma técnica para componentizar o método sorteio. Contudo, Python tem uma particularidade interessante: tudo, absolutamente tudo, é um objeto. Inclusive as bibliotecas importadas em um módulo.
Para provar isso, é muito simples. Basta chamar a função dir para inspecionar os elementos do módulo di.py:
>>> import di
>>> [elemento for elemento in dir(di) if not elemento.startswith('__')]
['Sorteador', 'random']
Assim, é possível observar a função random importada como sendo um de seus elementos. Ou seja, bibliotecas importadas em um módulo funcionam como variáveis. Sendo assim, em vez de injetar dependência, a biblioteca alvo pode ser simplesmente alterada na hora do teste:
from unittest import TestCase import di class SorteadorTestes(TestCase): def teste_sortear(self): sorteador = di.Sorteador(10) di.random = lambda: 0.5 sorteio = sorteador.sortear() self.assertEqual(5, sorteio) di.random = lambda: 0.54 sorteio = sorteador.sortear() self.assertEqual(5, sorteio) di.random = lambda: 0.56 sorteio = sorteador.sortear() self.assertEqual(6, sorteio)
De início passei a utilizar essa técnica mas achava que estava fazendo gambiarra. No entanto descobri a biblioteca Mock do Python. Sua função patch serve exatamente para isso, trocar uma biblioteca em tempo de teste por outra. E ela ainda vai além, tomando o cuidado de retornar o componente para seu objeto original após o teste, evitando assim efeitos colaterais indesejados em outros testes.
Enfim, eu gostei muito dessa abordagem distinta do Python. E você o que acha? É gambiarra ou apenas uma forma prática de se fazer Injeção de Dependência?



