Dev (Back & Front)ARTIGO

Apps móveis 2.0: a profissionalização

É indiscutivel que a cada dia os dispositivos móveis ocupam mais e mais espaço na sociedade e nas empresas. Já em 2011 a venda de smartphones e tablets (somados) no mundo inteiro ultrapassou a de PCs. As previsões de alguns analistas apontam que neste ano de 2012 serão vendidos quase 900 milhões destes dispositivos móveis, que será mais do que o dobro da venda de PCs.

Em termos de aplicações, provavelmente chegaremos a mais de 1,5 milhões de apps disponíveis nas principais lojas, como Android Market e App Store. É um número 15 vezes maior do que o número de aplicativos disponíveis atualmente para PCs. E é importante dizer que se desenvolve cada vez menos para PCs e mais para os dispositivos móveis. Estima-se que o número de downloads destes apps chegará a 85 bilhões – mais do que o dobro dos 38 bilhões baixados em 2011.

No Brasil as coisas andam bem mais devagar no contexto dos tablets. Em 2011, estes equipamentos representaram apenas 1,5% das vendas totais de computadores, mas a tendência é uma aceleração a partir deste ano de 2012.  Na verdade, os números no Brasil representam metade do que poderiam ser, se seguissemos a tendência mundial. Com o aumento da concorrência e o provavel barateamento dos aparelhos, as suas vendas devem aumentar. Outra variável é que a maioria dos tablets disponíveis por aqui estão baseados em sistemas operacionais próprios para smartphones e a experência gerada por eles não era tão boa quanto o esperado pelos consumidores. A chegada de versões mais avançadas também será um impulsionador para maiores vendas.

Mas os smartphones andam a uma velocidade bem maior. Em 2011 foram vendidos por aqui mais de dez milhões de aparelhos.

Para as empresas e desenvolvedores, entretanto, este mercado apresenta grandes desafios. Um deles é a batalha pelos ambientes operacionais, principalmente a disputa entre o iOS e o Android. De um lado a Apple, e de outros inúmeros outros fabricantes, que impulsionam o Android. A chegada do Kindle Fire da Amazon deve aumentar a presença do Android e as estimativas é de que em 2012 o número de apps em Android ultrapasse os de iOS.

O iPhone claramente revolucionou o mercado de celulares e o Android cresceu na sua cola. A concentração em torno destes dois ecossistemas deixa pouco espaço para outras alternativas. A RIM luta pela sua sobrevivência e a parceria entre a Nokia e a Microsoft ainda não gerou resultados positivos. Entretanto, mesmo com este cenário de duopólio, deve haver um incentivo ao uso do HTML5, de modo a proporcionar esta fragmentação de mercado. Talvez com o HTML5 a busca pelo “write once, run everywhere (escreva uma vez, rode em qualquer lugar)” proposta pelo Java, se torne realidade nos equipamentos móveis.

Um cenário que provavelmente veremos surgir com intensidade, ainda neste ano, é a integração dos apps com outros elementos do mundo de TI, como mídias sociais (mobile apps + social media), Big Data (mobile apps + Big Data), Cloud Computing (mobile apps + cloud), plataformas de comércio, como PayPal e outros (mobile aps + commerce) e plataformas corporativas, como o SAP (mobile apps + ERP).  O resultado será um impulso significativo para aplicativos móveis no âmbito corporativo.

Mas existe uma barreira a ser vencida. A maioria dos desenvolvedores nas empresas e nos principais ISVs do mercado brasileiro estão pouco familiarizados com apps móveis. A maioria dos ISVs que desenvolvem as soluções isoladas para funções pontuais, como encontrar os postos de gasolina mais próximos ou catálogos virtuais, sem integração com os aplicativos do mundo corporativo. A maioria destas empresas foram criadas a partir de experiências anteriores em desenvolvimento de sites. Muitas deles se autodenominam agências, focadas em publicidade e comunicação digital, e não empresas de tecnologia. Não tem experiência com o mundo corporativo e nem conhecimentos de sistemas ERP ou similares. O desafio é criar as aplicações móveis integradas às funções corporativas, agilizando processos de compras e outras tarefas a cargo dos sistemas de gestão. Portanto o desafio para deslanchar esta segunda geração de apps móveis será fazer estes dois mundos, o dos usuarios finais e suas aplicaçõe isoladas, com o mundo corporativo e suas demandas por integração à sistemas de gestão, se integrarem.

O que é preciso fazer? Primeiro desenhar as novas aplicações não de forma isolada, como uma app pontual, mas como projetos corporativos que explorem em sua concepção e fundamentos os recursos e facilidades da mobilidade, como LBS (Location Based Services) e “context aware”.

Os apps móveis não devem ser vistos como uma simples extensão dos aplicativos PCs. A proposta é desenhar mobile-centric applications. Isto tem implicações próprias, como entender que nem sempre a rede disponível aos aplicativos terá a mesma banda e qualidade de serviço, testar os aplicativos em diferentes dispositivos e mesmo diferentes operadoras. São alguns aspectos que até hoje não costumávamos considerar, mas que agora começam a fazer parte do processo de desenvolvimento.

Em termos de skill, os desenvolvedores precisam dominar os processos de negócios nos quais os sistemas estarão inseridos, bem como as tecnologias de mobilidade e as ferramentas disponíveis. Deverão ser desenvolvedores e não webdesigners com alguma experiência em programação.

Um bom ponto de partida é o MobiForge, além, é claro dos SDK disponibilizados pelos ambientes iOS e Android. O uso de simuladores ajudará muito, pois permite testar extensivamente a aplicação sem incorrer em despesas com uso das redes de comunicação. A mobilidade trará um impluso adicional ao conceito de SOA, pois a diversidade de dispositivos e recursos de integração com nuvens, aplicativos corporativos, ferramentas analíticas, ou mídias sociais, demandará uma maior abstração e separação entre os componentes que constituem as aplicações. Longa vida a SOA!

É CEO da Litteris Consulting. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70, com educação formal diversificada, em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como CIO Magazine, Mundo Java, além do iMasters, e apresenta palestras em eventos e conferências de renome. É autor de sete livros que abordam assuntos como Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado, Cloud Computing e Big data.

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