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Conteúdo Inteligente

A web 3.0 começa a passar do ponto. Muito se fala em filtros, em controle e acompanhamento de consumo (inclusive de consumo de conteúdo), mas até agora não se tem realmente a zona vermelha do que “passa/vai pra lixeira” ou do que “deve ser mostrado imediatamente”. Os programadores poderiam fazer uma força tarefa para desenvolver mais ferramentas que auxiliassem a ignorar determinadas coisas com confiança.

Como identificamos rapidamente o que nos interessa num texto, num vídeo ou em um conjunto de imagens? As preferências e interesses de cada pessoa por blogs e sites são um filtro. Claro, temos a ajudinha das ferramentas de busca. Outro modelo de filtro é o rastreamento ocular (já discutido) que varre e escaneia a tela em busca da informação desejada. E o que aprendi com minha equipe de conteúdo por meio de nossas experiências num portal com mais de meio milhão de visitas por dia é que o inusitado, o inesperado, o incorreto (pelos padrões) é o que mais se destaca.

Lembra do Wall-E? Aquele robozinho que ficou sozinho no meio do lixo do mundo? Eu sempre uso essa comparação nas aulas (aliás, esse artigo atende a pedidos). A Era de Excesso ou da não-informação, em que vivemos comporta a mesma quantidade de lixo digital que o mundo ressecado do Wall-E que mesmo possuindo a diretriz de organizar o caos, tinha um filtro e acabava levando pra “casa” uma porção de objetos.

Em uma de nossas experiências colocamos um professor de física quântica pra cobrir um dos melhores shows de rock do primeiro semestre de 2009. Ele nunca escreveu uma matéria jornalística, não sabe o que é uma pauta, uma lauda, um lead, absolutamente nada. Ele foi porque entendia da banda, sabia tudo o que ia acontecer, os nomes dos integrantes, a playlist do show e as datas da turnê. Ao contrário de todos os outros portais, ele publicou a matéria três dias depois do evento, quem vai querer ler o “jornal de ontem com notícias de anteontem”. Errado, né? Não, ele acertou. A matéria dele tinha apenas um parágrafo. Errado? Não, ele acertou. Ele não recebeu nenhuma orientação do editor para redigir a matéria. Errado? Não, ele acertou.

A matéria foi a mais lida do mês no portal e sabe o que havia nela? Conteúdo original. Ele fez uma pequena introdução contando as melhores passagens, ele entregou o melhor primeiro e convidou os interessados a ouvirem podcast detalhado e subiu um vídeo com a chegada da banda no clímax do evento. O link pro podcast estava entre a matéria e o vídeo e tinha cinco minutos que revelavam todas as novidades que nenhum outro portal havia divulgado. A única orientação que ele recebeu foi: “imagina que você está no telefone falando com sua irmã e grava o podcast“. Seu jeito descontraído arrastou milhares de cliques e recomendações para amigos, e se tornou um caso de estudo.

Se estivesse na pilha de lixo do filme da Disney, a matéria do Vôo 666 seria coletada pelo Wall-E e ele a levaria pra casa e a colocaria na prateleira do conteúdo inteligente.

No próximo artigo citarei outros exemplos, mas por hora, te convido a pensar sobre conteúdo inteligente, aquele que conquista grande audiência ao mesmo tempo em que luta contra todas as variáveis que jogam como adversários (incluindo filtros e ferramentas de busca).

Up the webwriters!

é jornalista e mestre pela UERJ na linha de Novas Tecnologias em Comunicação. Coordenou diversos projetos digitais na área de planejamento e conteúdo como o Portal Mundo Oi, SulAmérica, PUC-RJ, Senac-RJ, HSBC, Bradesco e CBTU. Atualmente é professora da ESPM, UNESA, UCAM, INFNET e iMasters PRO. É pesquisadora pelo CAEPM e consultora da Fundação Roberto Marinho.

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