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2 abr, 2026

Crise no Irã acelera “Corrida por soberania computacional”

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A escalada das hostilidades no Oriente Médio, marcada por ataques a infraestruturas críticas e pela instabilidade no Estreito de Ormuz, acendeu um alerta na indústria tecnológica global. O que até pouco tempo era uma corrida comercial impulsionada pelo avanço da Inteligência Artificial (IA) começa a se transformar em uma disputa estratégica por resiliência energética e soberania de dados.

Pela primeira vez na história recente, grandes regiões de nuvem pública, as chamadas Availability Zones, operam em áreas próximas a zonas de conflito ativo. O ataque com drones a instalações de datacenters de hiperescala na primeira semana do confronto reforçou o temor de analistas: essas estruturas deixaram de ser ativos comerciais neutros e passaram a ser consideradas infraestruturas estratégicas.

“Estamos presenciando o fim da era da nuvem onipresente sem rosto. Agora, a localização física de um data center importa tanto quanto o código que ele executa”, afirma Eduardo Menossi, sócio fundador do Grupo EBM, especializado na construção de data centers na América Latina. “A guerra no Irã não apenas encarece a energia, mas força uma reconfiguração completa da geografia digital mundial”, completa.

Esse novo cenário já começa a impactar diretamente três frentes críticas da indústria tecnológica global.

Pressão energética sobre a IA
Com a volatilidade do preço do petróleo e as ameaças ao fluxo de gás natural liquefeito no Golfo, o custo de operação de data centers voltados para IA aumentou significativamente em mercados dependentes de importação de energia. Estimativas indicam que essas infraestruturas já respondem por cerca de 3% do consumo global de eletricidade, um volume que tende a crescer com a expansão dos modelos de IA de larga escala.

Redirecionamento de investimentos globais
Projetos bilionários originalmente planejados para o Oriente Médio começam a ser reavaliados. Investidores e empresas de tecnologia passam a priorizar regiões consideradas mais estáveis do ponto de vista geopolítico e energético. Países como Brasil, Canadá e nações nórdicas surgem como potenciais polos de expansão da infraestrutura digital, combinando disponibilidade de energia renovável e menor exposição a conflitos internacionais.

Infraestruturas mais resilientes
Outro movimento já perceptível é a mudança nos projetos de engenharia de data centers. A prioridade, antes concentrada em eficiência operacional, passa a incluir critérios mais rígidos de segurança física e redundância energética. Modelos de arquitetura com múltiplas zonas de disponibilidade e sistemas de contingência reforçados deixam de ser diferenciais técnicos e passam a ser considerados requisitos básicos de continuidade de operação.

Além dos impactos diretos na infraestrutura digital, a crise também adiciona pressão à já fragilizada cadeia global de tecnologia. Tensões geopolíticas e gargalos logísticos vêm ampliando prazos de entrega de componentes estratégicos, como GPUs de alto desempenho utilizadas no treinamento de modelos de inteligência artificial.

Para Hudson Mendonça, vice-presidente de Energia e Sustentabilidade da MIT Technology Review no Brasil, o conflito também precisa ser observado pela óptica do equilíbrio energético global.

“A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel coloca em risco uma das principais rotas energéticas do mundo. O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo, e qualquer instabilidade nessa região impacta diretamente cadeias industriais altamente dependentes de energia, como datacenters e inteligência artificial”, afirma.

Segundo ele, o impacto pode ser especialmente sensível para economias com alto crescimento de consumo energético. A China, por exemplo, consumiu mais de 10 mil TWh de eletricidade em 2025, com projeções de aumento impulsionado pela expansão de data centers e da indústria de tecnologia. Nos Estados Unidos, a demanda por energia também cresce rapidamente, puxada pela corrida por infraestrutura de IA.

“Estamos entrando em uma fase em que energia, tecnologia e geopolítica passam a estar completamente interligadas. A expansão da inteligência artificial dependerá cada vez mais da estabilidade das cadeias energéticas globais”, completa Mendonça.

Diante desse cenário, especialistas apontam três possíveis desdobramentos para os próximos anos: a redistribuição global da infraestrutura de datacenters, o fortalecimento de estratégias nacionais de soberania digital e uma corrida por novas fontes de energia capazes de sustentar o crescimento exponencial da inteligência artificial.

Aqui a gente pode por uma fala da EBM e depois fechar com uma do Hudson falando dos próximos caminhos. Ambas nesse caminho, o que acham?

Sobre o Energy Summit

Organizado em parceria com o MIT, o Energy Summit é o principal evento de inovação e empreendedorismo em energia e sustentabilidade, que acontece anualmente no Rio de Janeiro. Conecta os maiores nomes da transformação energética e sustentabilidade, incluindo C-levels de grandes empresas e deep techs, autoridades governamentais, palestrantes internacionais, reitores de universidades e centros de pesquisa, que juntos lideram debates essenciais para acelerar o futuro da energia.