Carreira Dev

26 mai, 2026

Estamos acelerando software ou enfraquecendo julgamento técnico?

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Tenho pensado bastante sobre um aspecto do uso de IA em desenvolvimento de software que quase nunca aparece no hype atual. A conversa inteira gira em torno de produtividade, velocidade e substituição. “Os desenvolvedores vão acabar?” “Quantas pessoas um agente consegue substituir?” “Quanto código a IA consegue gerar por minuto?”

Mas talvez exista uma transformação muito mais profunda acontecendo e quase ninguém esteja prestando atenção nela.

Outro dia conversei com um engenheiro de software extremamente experiente. Ele comentou algo aparentemente simples, mas que ficou na minha cabeça. Revisou um código gerado com IA, aprovou o PR, os testes passaram, tudo parecia correto. Dias depois percebeu que um detalhe pequeno, quase invisível, tinha desaparecido durante a refatoração. Não era falta de conhecimento técnico. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. O problema parecia outro. Era como se parte da sensibilidade construída ao longo de décadas estivesse começando a enfraquecer silenciosamente.

E isso me fez pensar bastante. Talvez o maior efeito da IA não seja substituir engenheiros, mas remodelar lentamente a forma como pensamos, aprendemos e desenvolvemos julgamento técnico.

Durante anos, boa parte da formação de um bom engenheiro veio da fricção. Debug difícil. Código ruim. Sistemas quebrando às 2 da manhã. Ler milhares de linhas até entender um padrão. Passar horas perseguindo um bug absurdo até desenvolver intuição sobre como sistemas realmente falham. A fricção era dolorosa, mas era justamente ela que construía repertório.

Agora começamos a remover exatamente essa camada. A IA reduz atrito cognitivo o tempo inteiro. E isso traz ganhos reais de produtividade. O problema é que talvez estejamos removendo também partes importantes do próprio processo de formação humana e técnica.

O júnior talvez aprenda menos profundamente porque a resposta chega antes da dúvida amadurecer. O pleno começa a terceirizar parte do raciocínio. O sênior mantém o conhecimento, mas perde lentamente as “repetições diárias” que mantinham certas habilidades afiadas como leitura cuidadosa de código, percepção de inconsistências, debugging lento, construção mental detalhada do sistema.

E quase ninguém fala sobre isso porque o mercado está hipnotizado pela velocidade.

Existe algo filosoficamente curioso aqui. A tecnologia mais celebrada da indústria talvez esteja mudando não apenas o que produzimos, mas quem estamos nos tornando enquanto profissionais.

Não acho que IA seja “o fim dos desenvolvedores”. Mas talvez seja o fim de um certo processo de formação que produziu muitos dos melhores engenheiros que conhecemos. E ainda não fazemos ideia de qual modelo vai substituí-lo.