Carreira Dev

10 out, 2018

Sou programador. Por que devo entender o negócio?

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Com a quarta revolução industrial, a Internet se tornou o principal meio de comunicação entre as pessoas. Isso é muito fácil de notar, basta perceber o número de pessoas que andam com os seus celulares na mão respondendo a mensagens, lendo artigos e notícias, acessando as suas redes sociais etc.

No entanto, não somente a comunicação quebrou barreiras, mas como o conhecimento também. O que antes era exclusivo de poucos que podiam pagar no mundo acadêmico se tornou público e acessível. Isso até hoje ajuda muita gente que deseja entrar na área, afinal, há inúmeras formas de aprender sobre programação na rede, o que é maravilhoso.

Mas, apesar disso, conversando com meus amigos e amigas, colegas de trabalho, pessoas que atuam no mercado de tecnologia como empregadores e empregados e com programadores e programadoras em geral através das redes sociais e por meio de encontros em meetups e eventos, notei uma tendência preocupante nessa nova geração de profissionais: a de negligenciar o negócio.

Para contextualizar o ponto em que quero chegar, vou utilizar a minha própria experiência. Há alguns anos, trabalhei em uma empresa de healthcare. Em resumo, essa empresa desenvolvia soluções web para laboratórios, clínicas e hospitais de todos os portes. Havia soluções para medicina diagnóstica, gestão laboratorial, diagnóstico por imagem, logística e afins.

Quando eu comecei, mal sabia o que estava fazendo. Somente codificava funcionalidades e telas de acordo com as especificações que eram passadas nas histórias (Scrum). Mas, com o tempo, fui promovido como Scrum Master e comecei a lidar mais diretamente com os clientes, os produtos e suas integrações. E foi aí que o bicho começou a pegar…

Para começar, eu tinha uma dificuldade tremenda para atender aos suportes (problemas em produção) e alterar as integrações. Isso porque eu não entendia nada sobre como o negócio e as coisas deveriam funcionar. “Será que faz sentido um exame do tipo X estar agrupado com um do tipo Y?”, “Um documento desse tipo pode ser exibido na Internet?”, “Os valores padrões de visualização estão corretos?”. E como você faz quando está com todas essas dúvidas enquanto o paciente está lá esperando ou quando você está muito próximo do deadline do projeto?

Outra coisa que começou a acontecer muito foram reclamações sobre os layouts e os fluxos das telas. Era comum escutar coisas assim do cliente: “Mas os médicos não precisam aprovar procedimento X para fazer Y”, “Os médicos estão tendo que acessar muitas telas para liberar o exame”, “Os pacientes não conseguem acessar os exames, está confuso”.

Ou seja, como eu não entendia o negócio, não fazia ideia de como fazer as telas e os fluxos de maneira que fizessem mais sentido ao dia a dia dos profissionais que iriam usar. Em resumo: usabilidade e UX.

Enfim, chegou um momento em que finalmente caiu a ficha: apesar de saber programar bem, eu não atendia de forma satisfatória às demandas dos clientes. Depois que essa ficha caiu, consegui tomar algumas atitudes para melhorar esse meu lado não técnico. Óbvio que não consegui fazer isso da noite para o dia, mas algumas simples atitudes ajudaram muito, como:

  • Conversar mais com o meu gerente/líder: mostrei interesse em me aproximar da área de negócios. Com isso, ele começou a abrir espaço para que eu participasse de mais reuniões com os clientes.
  • Ler sobre o assunto: um aspecto importante é sempre a leitura. A área médica é bastante ampla e complexa, mas me dediquei a aprender o máximo que pude sobre os procedimentos em que eu atuava.
  • Não fugir dos problemas em produção: muitos dos problemas em produção, como foi citado, aconteceram por que eu e minha equipe não compreendíamos como o usuário pensa. Quando essas situações aconteciam, comecei a usá-las como experiência para aprender mais sobre o meu cliente e o negócio como um todo.

Vejo toda essa situação pela qual passei se repetir cada vez mais no marcado brasileiro, principalmente… A empolgação de aprender algo novo nos desvia do verdadeiro objetivo de agregar valor ao cliente. Isso acaba se resultando em projetos subestimados, atrasados e caros.

Acredite, em grande parte dos casos, não vai interessar para o cliente se você utilizou tecnologia X ou Y, mas sim se você conseguiu resolver o problema de forma eficaz.

Ao alinhar o seu conhecimento técnico ao conhecimento de como o negócio em que você atua funciona, você conseguirá:

  • Entregar demandas com mais qualidade
  • Fazer melhores sugestões/críticas sobre os pedidos do cliente
  • Ter menos retrabalho, pois você errará menos
  • Atender de forma mais satisfatória o seu cliente, pois você irá otimizar o processo de trabalho dele

A mensagem que quero passar se resume na seguinte frase: jamais deixe de aprender e se divertir no trabalho, mas, como profissional, se preocupe sempre em atender o cliente de forma precisa e no contexto em que ele vive, e não com o que você quer fazer/usar no projeto.

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Artigo publicado na revista iMasters, edição #27: https://issuu.com/imasters/docs/imasters_27_issuu