Carreira Dev

13 nov, 2018

Mentoria e tutorização: precisamos conversar

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Todos nós, em algum momento de nossas carreiras, assumimos o papel de mentor e tutor. Seja como um representante de alguma comunidade de desenvolvimento ajudando a espalhar conhecimento, seja dentro de uma empresa em que coordenamos uma equipe ou precisamos preparar um sucessor, ou mesmo por um espaço delimitado de tempo numa hackathon ou em um workshop. Hoje, temos até comunidades inteiramente dedicadas a ligar mentores a quem deseja aprender, como é o caso da Training Center ou o programa de mentoria da WoMakers Code.

Nos últimos dois anos da minha carreira, eu resolvi me dedicar mais a aprender melhor e a compartilhar conhecimento, depois de uma experiência frustrante tentando contratar desenvolvedores teoricamente seniors que sabiam muitas regras de cor, mas efetivamente não dominavam nenhum conceito.

10 anos decorando regras e sintaxes não te fazem um bom resolvedor de problemas

Nessa jornada pessoal de tentar ajudar cada vez mais pessoas, percebi uma questão que parece simples, mas não é: todo mundo fala em ensinar, mas ninguém fala sobre “permitir aprender”. E são coisas diferentes. BEM diferentes. Algumas coisas só podem ser aprendidas, mas não ensinadas, porque dependem muito da experiência pessoal de cada um e da lição que pode ser tirada do ocorrido, dado o atual contexto da pessoa.

Durante a última hackathon em que tive o enorme prazer de participar como mentora, havia centenas de participantes, e testemunhei um caso em particular que chamou minha atenção. Em um dos dias, tarde da noite, eu e alguns colegas passamos por alguns times para conversar e ver se podíamos ajudar em algo.

Um dos times, por algum motivo, não tinha uma pessoa que entendesse de desenvolvimento web, apesar de o produto deles exigir esse tipo de conhecimento. O desenvolvedor responsável sabia C e C++ e estava muito confuso, porque, segundo ele, cada mentor que passou pela mesa do grupo sugeriu uma ferramenta diferente: Django (Python), Laravel (Php), Rails (Ruby).

E cada um desses mentores tinha seus argumentos embasando a escolha. Nenhum deles perguntou coisas tipo “qual o problema que você precisa resolver?” ou “qual caminho você acha que pode seguir?”. Nenhum conceito foi discutido, a situação sempre se resumia a “você precisa desenvolver web, usa esse framework aqui que vai resolver seu problema”.

É esse mesmo o papel de um mentor? Ou de um tutor?

Você sabia que tutorar e mentorar são coisas diferentes? Acredito que em algum momento você já tenha visto alguma árvore ou outra planta apoiada em uma espécie de pedaço de madeira, como nesta imagem aqui:

Isso é um tutor. A função dele é guiar o crescimento da planta em uma determinada direção (nesse caso, para cima). Ele dá a sustentação que, por enquanto, o próprio corpo da planta não tem.

Deixa eu repetir: o tutor GUIA o crescimento em uma determinada DIREÇÃO. O tutor não faz a planta crescer. Aliás, ninguém tem o poder de fazer uma planta crescer. Puxá-la para cima vai, no máximo, arrancar a coitada do vaso com raiz e tudo. O tutor garante que, conforme a planta cresce, ela esteja na direção certa, sem interferir diretamente no seu desenvolvimento. Nesse caso, não importa qual seja a planta, a ação do tutor é sempre a mesma.

Entretanto, para que efetivamente a planta cresça, outros cuidados são necessários. Não adianta apontar a direção correta se a planta não é regada, adubada, iluminada ou podada corretamente.

Enquanto o tutor pode ser o mesmo para todas as plantas, os cuidados que são diretamente ligados à nutrição e ao desenvolvimento delas varia de acordo com cada uma. Algumas precisam de mais sol, enquanto outras, se tomarem sol demais, podem secar. Algumas precisam ser regadas todos os dias, outras só uma vez por semana.

Isto é a mentoria: o cuidado personalizado que cada um exige para que possa crescer. E, mesmo com todo esse cuidado personalizado, a planta cresce no tempo dela. Jogar mais água ou colocar mais terra no vaso não vai transformar uma muda em uma árvore em um mês. Em compensação, se nenhum cuidado for tomado, a planta morre.

Entendendo o significado de tutorização e mentoria, eu posso exemplificar uma situação prática: como eu ajudaria alguém a iniciar no desenvolvimento web com PHP.

Como tutora, apresentaria o PHP do jeito certo, as PSRs, reforçaria a importância da padronização, apresentaria o php.net e incentivaria a busca pela documentação das funções que trouxessem alguma dúvida. Também apresentaria alguns conceitos básicos sobre a web em si: requests, a diferença entre cliente e servidor, o caminho da informação dentro de um sistema web desde o navegador até o processamento pelo servidor e a resposta de volta no navegador. Indicaria alguns materiais e talvez até cursos confiáveis.

Dessa forma, eu consigo guiar a pessoa na direção correta no contexto atual do desenvolvimento web com PHP. Eu não estou exatamente ensinando, apenas indicando alguns caminhos a serem tomados.

Como mentora, eu observaria as atitudes da pessoa em relação ao caminho dado e acompanharia seu desenvolvimento, entregando elementos conforme seja necessário. Exemplo: se a pessoa estiver se sentindo muito insegura, posso passar um exercício que eu, com meu entendimento sobre ela e seu real nível de conhecimento, conseguiria facilmente resolver.

Talvez ela não ganhe muito conhecimento técnico, mas ganharia confiança para continuar os estudos. Ou, então, se a pessoa beirar a arrogância (quem nunca?), posso passar um exercício realmente desafiante, que a faça se questionar algumas vezes sobre a sua real capacidade (às vezes, é necessário).

Se a pessoa chegasse até mim dizendo “olha, fiz essa função e tive esse erro, pode me dizer o que significa?”, eu nunca daria a resposta. Provavelmente, eu responderia “o que aparece escrito na mensagem de erro?”. E então iria estimulando a pessoa a procurar a origem do erro sozinha.

Com certeza, esse processo seria muito mais demorado, mas garantiria o real aprendizado, já que a pessoa acharia a solução por ela mesma. É entregar somente o necessário para que a pessoa ache o próprio caminho em seus estudos.

Mesmo que duas pessoas cheguem ao mesmo resultado, cada uma teve seu caminho de execução. O que funciona para mim não vai funcionar para você. Quando tentamos ensinar alguém, corremos o risco de forçar um contexto de aprendizado baseado em nossas próprias experiências e esquecemos que cada pessoa tem seus próprios desafios e compreende o mundo de uma maneira diferente.

Agora, se em vez de tentarmos ensinar, nós entregarmos à pessoa os elementos necessários apenas dando pequenas dicas para que ela não fique travada em seu próprio processo, ela nunca vai esquecer o que for aprendido, já terá descoberto as soluções por si só.

Ou seja: a pessoa aprende sem ser ensinada. Isso significa que o trabalho de um mentor é muito mais dispendioso do que aparenta ser: ele precisa conhecer muito bem os conceitos em que está oferecendo ajuda, precisa conhecer muito bem a si próprio para identificar seus próprios limites e precisa ter empatia e saber conhecer o outro como o outro realmente é para que possa guiá-lo dentro do caminho que ele precisa, não aquele que o mentor tenha imaginado ser o melhor.

Às vezes, precisamos deixar a pessoa cair e aprender a se levantar sozinha, e apenas estarmos lá para entregar a caixa de primeiros socorros e falar “abre aí e vê o que te serve melhor para parar a dor”. E isso não é fácil. É muito mais fácil saber o que fazer do que saber o que não fazer.

Então, voltando à situação da hackathon: em vez de chegar para o participante e dizer algo como “use Laravel”, por que não dizer “dá uma pesquisada nos frameworks PHP que estão em alta hoje e depois a gente conversa”? Isso faria a pessoa entender o que é um framework PHP, conheceria as tendências de mercado e pelo menos veria por cima o funcionamento básico desses frameworks.

Isso levaria apenas algumas horas e, após escolher um dos frameworks para trabalhar, a pessoa teria seus próprios argumentos para justificar essa escolha. E, com certeza, ela nunca mais vai esquecer o que aprendeu, já que foi por escolha própria.

Ao simplesmente tentar passar o seu conhecimento do seu jeito em vez de se adaptar à maneira do outro, supondo que a pessoa realmente consiga aprender como você, na MELHOR das hipóteses seu maior resultado como suposto mentor seria ter um aluno que sabe exatamente as mesmas coisas que você, da mesma maneira que você. Dessa forma, o conhecimento do aluno é limitado ao conhecimento do professor. Ao invés de expandir a capacidade de raciocínio e evolução, você apenas cria novas barreiras.

Não existe maior alegria para um mestre do que perceber que seu discípulo se desenvolveu muito mais do que ele. Isso garante que os discípulos de seu discípulo também saberão mais do que ele. Assim, o conhecimento pode crescer de forma exponencial.

Lutemos por mais conhecimento e menos ego.

Artigo publicado na revista iMasters, edição #28: https://issuu.com/imasters/docs/imasters_28_v5_issuu