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Desenvolvedores deixam de ser executores e passam a disputar espaço com profissionais de produto

O avanço da inteligência artificial está transformando o papel dos desenvolvedores dentro das empresas. Com mais automação na execução técnica, cresce a demanda por profissionais que conectem engenharia, produto e objetivos de negócio. O artigo discute como a relevância deixa de estar apenas na escrita de código e passa para a capacidade de tomar decisões, entender contexto e construir soluções orientadas por resultado. A tendência aponta para equipes mais enxutas, multidisciplinares e integradas.

Desenvolvedores deixam de ser executores e passam a disputar espaço com profissionais de produto
Imagem: Fabio Seixas

Pare de tratar software como linha de montagem especializada. A separação histórica entre quem pensa o produto e quem apenas executa código está ruindo em velocidade muito maior do que o mercado imaginava. Durante décadas, empresas de tecnologia criaram estruturas em que estratégia, produto, design e engenharia funcionavam em silos, como se transformar uma ideia em solução digital dependesse necessariamente de longas cadeias de repasse.

Esse modelo começa a perder eficiência justamente no momento em que ferramentas de inteligência artificialInteligência artificial440 conteúdosUX e IA: Transformando Experiências Digitais com Inteligência ArtificialProduto & UX · jan 2025MCP: O que é e por que você vai ouvir falar disso em breve?AI · jul 2025IA generativa e a urgência de reconstruir nossa relação com a verdadeAI · jun 2025Ver tudo em AI tornam o desenvolvimento mais acessível, automatizado e orientado por contexto de negócio. O programador que apenas recebe tarefas e entrega código tende a perder relevância. Em seu lugar, cresce a demanda por profissionais capazes de entender problemas reais, tomar decisões e construir soluções completas.

Os dados já mostram que essa transformação não é teórica. Segundo o estudo “The AI Revolution in Software Development”, publicado pela McKinsey em abril de 2026, empresas que aplicam IA em todo o ciclo de desenvolvimento registram ganhos entre 16% e 30% em produtividade e redução de time to market, além de melhorias de 31% a 45% na qualidade do software.

O dado mais simbólico talvez seja outro. Um banco global analisado pela consultoria conseguiu operar uma fábrica de agentes de IA com velocidade dez vezes maior e metade do custo tradicional. Isso muda completamente a lógica da contratação em tecnologia. Se a execução técnica se torna parcialmente automatizada, o diferencial competitivo deixa de ser apenas saber programar e passa a ser entender o que vale a pena construir.

Eu tendo a ver esse movimento como o início do fim do desenvolvedor puramente operacional. Não porque a engenharia perderá importância, mas porque a barreira técnica está diminuindo mais rápido do que a barreira de negócio. Ferramentas de vibe coding e agentes de programação estão permitindo que profissionais com boa lógica e repertório de produto criem aplicações funcionais sem depender de grandes equipes técnicas.

Ao mesmo tempo, muitos engenheiros ainda foram formados para responder tickets, não para discutir impacto, receita, retenção ou eficiência operacional. Em um ambiente econômico mais pressionado por margem e velocidade, empresas começam a perceber que pequenos times multidisciplinares produzem mais do que estruturas enormes e hiperespecializadas.

Isso não significa que qualquer pessoa consiga substituir engenharia de software de alta complexidade. Sistemas críticos, infraestrutura, segurança, arquitetura e escalabilidade continuarão exigindo profissionais altamente qualificados. Mas acredito que existe um erro recorrente na forma como parte do mercado interpreta essa discussão. O risco não está na inteligência artificial “tirar empregos” da programação.

O risco está em profissionais técnicos insistirem em ocupar apenas a camada mais automatizável do processo. Segundo o relatório “Unlocking the Value of AI in Software Development”, publicado pela McKinsey em novembro de 2025, empresas consideradas líderes na adoção de IA são até sete vezes mais propensas a escalar múltiplos casos de uso da tecnologia em todas as etapas do desenvolvimento.

Isso revela que o valor já não está concentrado apenas na escrita do código, mas na capacidade de integrar negócio, produto, dados e execução em um fluxo contínuo.

Também me parece equivocada a ideia de que profundidade técnica e visão de produto competem entre si. O mercado mais valioso provavelmente será ocupado justamente por quem consegue unir os dois lados. O engenheiro que entende métricas de negócio, comportamento de usuário e estratégia corporativa tende a se tornar mais decisivo dentro das empresas.

Da mesma forma, profissionais de produto que aprendem a estruturar soluções tecnicamente viáveis passam a depender menos de intermediários para inovar. O resultado é uma mudança importante de poder dentro das organizações. Em vez de departamentos isolados e processos lentos, cresce o espaço para equipes enxutas, autônomas e orientadas por resultado.

As empresas que entenderem isso antes devem ganhar velocidade competitiva nos próximos anos. As que insistirem em estruturas excessivamente fragmentadas provavelmente enfrentarão custos maiores, ciclos mais lentos e menor capacidade de adaptação.

O desenvolvimento de software deixa de ser apenas uma atividade técnica e passa a funcionar como uma competência estratégica integrada ao negócio. Por isso, a discussão mais importante já não é se a IA substituirá desenvolvedores. A pergunta real é outra. Quem continuará relevante em um mercado onde executar deixou de ser suficiente?

Com mais de 30 anos de experiência em tecnologia e negócios digitais, Fabio Seixas é empreendedor, mentor e especialista em desenvolvimento de software. Fundador e CEO da Softo, uma empresa de tecnologia especializada em IA aplicada e engenharia de software orientada a resultados, Fabio já criou e dirigiu oito empresas da economia digital. Sua trajetória inclui expertise em software, inteligência artificial, infraestrutura em nuvem, produtos digitais e web3.

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