A Apple, seu processo de seleção e por que eu desencantei daquilo tudo

PorDébora Bossois em

Li esses dias o texto do Jordan Price, aquele designer que contou sua experiência de trabalhar na Apple, desde o processo de seleção, até sua demissão algum tempo depois (se não leu ainda, clica aqui). Isso me lembrou da experiência que eu, também, tive com a Apple um tempo atrás e resolvi escrever. Espero que este texto possa te ajudar a estar mais bem preparado e com expectativas no lugar, caso você participe de um processo na empresa.

Bom, terminei meu mestrado em agosto de 2010 e duas semanas depois viajei para Londres, onde morei por 7 meses. Quando retornei, com meu inglês fresquinho, achei justo mandar meu currículo para as grandes da minha área: Google, Apple e Microsoft – custa nada, né? Meu mestrado foi na área de Processamento de Linguagem Natural, então achei que pudesse haver algum interesse por parte delas. Mandei o currículo numa sexta-feira; na segunda-feira seguinte, recebi um e-mail da Google e, 4 meses depois (em setembro de 2011), um e-mail da Apple (não, até hoje, nada da Microsoft :P). Depois falo da Google, vamos primeiro ao caso Apple, que foi bem mais complexo.

A vaga era para “Localization Technologies Engineer”. O recrutador me enviou um descritivo sobre essa posição, que dizia se tratar sobre o desenvolvimento e tradução de recursos do iOS para o mercado estrangeiro, no caso, o Brasil. Ele agendou de cara 3 entrevistas por telefone, que seriam de 30 minutos cada, para conversar com diferentes profissionais de Cupertino. Na primeira delas, o entrevistador pediu que eu falasse sobre meu mestrado e sobre os desafios da língua portuguesa, seus diferenciais, estrutura de frase, conjugação de verbos etc. Além disso, ele me forneceu mais detalhes sobre a vaga: na verdade, eles estavam buscando uma equipe para trabalhar no desenvolvimento do Siri para Português-BR; Siri, que havia sido lançado pouco tempo antes e causado um auê na internet. Eu acompanhei o lançamento na época, e fiquei fascinada com os recursos do assistente. Trabalhar na Apple, no desenvolvimento do Siri para meu idioma materno, seria o auge da minha realização profissional!

Pois bem, tentando manter a empolgação controlada, seguiram-se as entrevistas. A próxima foi extremamente técnica, envolvendo perguntas específicas sobre banco de dados, linguística computacional, n-gram e afins. Já a terceira foi bem tranquila, somente assuntos gerais relacionados ao mestrado e ao trabalho, sem tantos problemas.

Depois de alguns dias, o recrutador retornou contato informando que a equipe decidiu prosseguir com o processo e agendou outras duas entrevistas. A primeira também foi técnica, mas de forma mais genérica; abrangeu questões sobre expressão regular, regras de formação de frases e estrutura de dados. A segunda, por sua vez, foi – digamos – inesperada. Assim que atendi, me surpreendi com a pessoa falando em português; era um brasileiro, que logo foi declarando não trabalhar na área de computação e nem ter experiência na realização de entrevistas. Muito simpático, ele me deu dicas sobre como é a vida por lá, sobre onde morar, meios de transporte, clima e coisas do gênero. Revelou que o trabalho lá é realmente bastante puxado, como dizem, que há de se abdicar de muitas coisas, mas que, segundo ele, vale a pena. Ao final, ele me enviou um texto em inglês para o qual eu deveria fazer uma tradução, que seria avaliada por ele em seguida. Simples assim.

Cerca de uma semana depois, o recrutador me comunicou que meu processo progrediria para o próximo passo, e agendou outras 4 (quatro!) entrevistas. Pelo que pesquisei sobre esses profissionais, percebi que seus cargos eram mais avançados, a maioria de gerência. Os contatos que se seguiram adotavam, de forma geral, o mesmo padrão: eu iniciava fornecendo detalhes sobre o meu mestrado e/ou trabalho, explicava os diferenciais que me qualificariam para a vaga em questão, e respondia perguntas relacionadas a linguagem, português e gramática. Dois deles, que me pareceram ser os responsáveis pelo processo de seleção, me informaram que, provavelmente, o candidato seria definido nas próximas 3 semanas. Aparentemente, meu processo estava chegando ao fim!

Depois disso, fiquei duas semanas sem contato, então enviei um e-mail solicitando mais informações. Em resposta, o recrutador agendou para conversarmos por telefone na semana seguinte, já em dezembro de 2011. Durante a conversa, ele me informou que a vaga estaria suspensa por algum tempo e que ele retornaria contato em janeiro ou fevereiro de 2012. Nem ele explicou, nem eu entendi o motivo para tal, já que eu havia sido informada, mais de uma vez, que estavam com certa urgência para finalizar a seleção e que, dentro em breve, tomariam a decisão.

E assim fiquei por meses. Terminou janeiro, terminou fevereiro e nada. Enviei um ou dois e-mails durante esse período, mas sem muitos esclarecimentos. Pessoalmente, já havia considerado encerrado o processo, por falta de informação. Todo o perfeccionismo que a empresa difundia não estava me fazendo aparente naquela situação. Em agosto de 2012, 8 longos meses depois, o recrutador finalmente retornou contato e informou que gostaria que eu retomasse as conversas com os membros da equipe. Na altura do campeonato, já estava desacreditada e cansada depois de 10 entrevistas (incluindo a conversa com o recrutador), tamanha espera e falta de informação. Toda aquela minha empolgação do início já nem era mais visível. Mas OK, que venham as próximas. Foram agendadas novas 4 entrevistas para a semana seguinte.

Já na primeira, conversei com um gerente de linguagem que trabalha na Apple de Paris; o fato é que eu já havia conversado com ele anteriormente! Ele se mostrou desentendido e constrangido, disse que provavelmente se tratava de um engano por parte do recrutador. Bem estranho, considerando que outras duas das entrevistas também seriam com profissionais repetidos. Esses, porém, seguiram o contato normalmente. Um deles, por exemplo, desenhou uma situação de pressão e pediu que eu fornecesse uma solução viável para a mesma. Por fim, a última entrevista foi com um engenheiro do Siri, que me apresentou questionamentos mais técnicos, sobre linguagem e estrutura de dados.

Passado tudo isso, mais uma vez, fiquei algumas semanas sem notícias. Aquela situação toda já vinha exaurindo meu tempo e minhas energias desde muito tempo. O trabalho dos sonhos já não me parecia tão bom; queria mesmo que aquilo terminasse, seja qual fosse a decisão. 1 mês e meio depois, então, o recrutador enviou a esperada resposta: a equipe decidiu não prosseguir com minha aplicação. Ufa!

A impressão que ficou depois desse quase 1 ano não foi das melhores. Já havia lido sobre a demora do processo de seleção da Apple, mas esses casos incluíam entrevistas prévias por telefone e entrevistas in loco, seguindo toda uma sequência de passos evolutivos. O meu caso não foi exatamente esse; achei o processo um pouco desorganizado e muito cansativo.

Totalizando, foram infindáveis 14 entrevistas, sem mencionar os atrasos e os agendamentos perdidos – em mais de uma situação, organizei meu cronograma para estar disponível no horário combinado e o entrevistador não deu sinal. Em alguns casos, a entrevista foi posteriormente remarcada, em outros, simplesmente cancelada. Além disso, aqueles 8 longos meses de espera e sem esclarecimento foram um tanto quanto indelicados com o candidato a futuro profissional da empresa.

Lógico, estamos falando de uma gigante mundial – qualquer seleção inevitavelmente será complicada e demorada, sabemos disso. Mas, pessoalmente, depois de passar por todo esse processo, “trabalhar na Apple” perdeu aquele sentido utópico e pomposo que tinha antes. Por motivos outros que os do Jordan, concluí que eu, também, queria MUITO trabalhar na Apple, mas agora nem tanto.

Ah, sobre o e-mail da Google! Após o primeiro contato, agendamos uma entrevista para a semana seguinte. Conversei com um engenheiro e, uma semana depois, recebi o e-mail da não confirmação. Simples e prático assim! :P

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36 comentários

Comentários

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  1. Cara, que leitura incrível! Inicialmente eu tinha vontade de saber o tema do post, depois que percebi a leitura gostosa que tive, queria que não acabasse mais. Débora, tens que escrever mais porque tens um dom simétrico para palavras. E ó, larga mão dessas gigantes que mais ou menos, à longo prazo, valorizam profissionais. Com certeza em qualquer lugar brasileiro que você vá, serás bem alocada. Sucesso!

  2. Oi Débora, eu também já tinha lido o artigo do Jordan e quando ele diz que foi muito simples entrar, só uma entrevista e tudo bem.

    A impressão que ele passa já é errada, ele não foi nunca na verdade contratado pela Apple, ele como disse, era contratado por outra empresa que “forneceu” o “resource” para a Apple, e a entrevista simples que ele fez, normalmente é feita só para saber que a recomendação da empresa de recrutamento foi acertada.

    Na realidade a coisa é sim muito mais complicada como mostra a sua experiência.

    Foi muito bom você ter escrito o artigo pra deixar isso mais claro para o pessoal.

    1. Isso aí, não é nada simples o processo. Achei legal falar sobre isso para outras pessoas terem em mente que enfrentarão um longo percurso caso participem do processo, né. :)

  3. Puxa, mais essa coisa de ‘maiores explicações’ é um vacilo imperdoável para quem quer trabalhar com linguagem, viu? Imaginei a Siri falando ‘você quer maiores informações’?

    1. Pois é, às vezes a gente tem uma impressão de “maravilha” quando se trata de empresas tão grandes, né? Mas na prática, nem tudo são flores. hehehe

  4. Através de experiências com essa é que se vê que as gigantes não são assim tão maravilhosas. Mas não fim quem perdem são elas que deixam de conhecer melhor pessoas como você e muitas outras que também passaram por isso. O mercado das menores acabam agradecendo a incompetência dessas gigantes.
    Parabéns pelo texto limpo e gostoso de se ler.

  5. Entendo, imagino que a cada nova entrevista aumentava a expectativa, e a marca Apple deve atrair o desejo de se trabalhar lá. Mas não precisa de muita análise para descobrir que você é uma pessoa especial, tenho certeza que você vai conseguir algo melhor.

    1. Não só por ser “A” Apple, mas também por se tratar de uma vaga em processamento de linguagem natural, que é uma área que eu amo. Então, é… as expectativas eram grandes! heheh.. mas, sem dúvida, valeu a experiência. :)

  6. Você não tentou a Dell? Fiz 3 entrevistas por telefone e fui contratado em 2011, para trabalhar no Brasil, em Porto Alegre, mas em um time globalmente distribuído. Falavamos inglês diariamente, e alguns colegas viajavam para a sede e outras filiais, alguns temporários, outros em definitivo.
    Fiquei 1 ano e 3 meses, sai por outra oportunidade em outra empresa.

      1. Tenho dois amigos que trabalham na área de software e suporte da Dell e é uma ótima empresa na parte de ambiente de trabalho e respeito a funcionários.

  7. achei muito interessante o texto muito bem escrito e pra falar a verdade eu tinha curiosidade de saber como é o processo seletivo dessas empresas, mais ai vou te contar a sua paciencia foi fora do comum, pois se fosse outra pessoa já tinha jogado tudo pro alto,

  8. O q me impressiona nos comentários de qualquer artigo em qualquer comunidade é que, por mais que todo mundo elogie (como é o caso aqui em relação à fluidez do artigo, muito boa, por sinal), tem sempre um troll q aparece anônimo pra comentar alguma picuinha. É muita falta do que fazer
    No mais, muito legal seu artigo, Débora
    Obrigado por compartilhar sua experiência

  9. Débora, show de bola o texto e muito interessante, vou me preparar para um processo assim e vc me ajudou a entender o que esperar. Muito bom o texto com uma fluidez contagiante. Abraço e sucesso.

  10. É por esses e outros motivos que prefiro ter trabalhar em uma empresa relativamente “pequena” mas que dê valor ao seu profissional. Obrigado por compartilhar sua experiência!

  11. A grande questão, quando se trata de processo seletivo das grandes e melhores empresas, é: o candidato precisa demonstrar o motivo pelo qual a empresa deve contratá-lo. Parece simples, mas não é. No Brasil, estamos passando por uma revolução no mercado acadêmico. Acesso amplo ao nível superior e pós-graduação, o que não necessariamente significa melhor aptidão para o cargo ou função a ser desempenhado(a). E quando falamos de qualidade de prestação de serviços, estamos muito aquém até de países vizinhos, como Argentina e Chile, com economias menos e mais estruturadas que a nossa, respectivamente. Empresas que buscam qualidade, sobretudo aquelas do mercado tecnológico, entendem como uma propaganda negativa pode se alastrar de forma incontrolável. Soube recentemente de um processo seletivo da mesma empresa que resultou sem contratação, pois nenhum candidato se mostrou capaz de se comprometer com a imagem da marca e de passar credibilidade/confiança ao consumidor, independentemente do seu alto grau de titulação acadêmica (doutorado e pós-doutorado). Quem já teve a oportunidade de visitar restaurantes e lojas (maisons) de grandes estilistas no exterior, por exemplo, Carolina Herrera, sabe o que estou falando. Mesmo que você aparente que não vá comprar o produto, o tratamento dispensado por todo o staff não altera. No Brasil, infelizmente, percebemos um comportamento contrario. O que reflete que a postura dos candidatos como uma questão cultural. As empresas líderes de mercado não preenchem vagas simplesmente por tê-las ociosas, pois compreendem que pessoas erradas no lugar errado geram mais prejuízos que lucros.

  12. A Apple está fazendo diversas dinâmicas e entrevistas para um start-up em São Paulo e Rio ,’são diversas vagas. O que achei estranho :1 Deus e mundo já participou do processo, só eu conheço uns 15 que foram nas dinâmicas e não passaram. 2 – a consultoria te liga e pergunta sua pretensão , qualquer valor que você fala eles dizem que está dentro. Tenho amigos que jogaram 15 mil de pretensão , para uma vaga que nosso mercado paga em média 3.500,00 . Enfim… Um processo que está desde janeiro, sem feedback algum, e sem explicação alguma . So para matar minha curiosidade , alguém passou ou conhece alguém que passou para essas vagas (chanel retail manager) ?

  13. Olá, Débora, tudo bom? Estamos fazendo uma matéria sobre esse tema aqui na Folha de S. Paulo. Será que podemos conversar? Muito obrigado, André

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