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Os boatos sobre a morte da Arquitetura de Informação são largamente exagerados

PorAnna Raquel Serra em

Tendências como no interface e APIs proprietárias não sepultam a Arquitetura de Informação. Pelo contrário, a complexidade do cenário digital atual dá novo fôlego à base da disciplina.

Em tempos em que muito se fala de User Experience (UX), Consumer Experience (CX) e Estratégia de Conteúdo, falar de Arquitetura de Informação (AI) parece até antiquado. Afinal, quem ainda se preocupa com mapa do site? Tem aquele tal livro do Urso Polar; mas ele não foi escrito em 1998? Com certeza, hoje, temos alguma coisa mais adequada para esse mundo digital tão complexo, não é? Ou se tratam de práticas tão enraizadas nos profissionais que tudo que havia para dizer sobre AI já foi dito? Afinal, agora que temos aplicativos multiplataforma, bots, realidade virtual e o domínio dos messengers. O que era usado para criar experiências lá no início da internet deve estar ultrapassado, certo?!

Na verdade, os boatos sobre a morte da Arquitetura de Informação são largamente exagerados. Pelo contrário, a complexidade do cenário digital pede cada vez mais pelo planejamento estrutural, que é a base dessa disciplina. E produtos digitais que deixarem essa etapa de lado correm o sério risco de falhar em proporcionar uma boa experiência a seus usuários – ou seja, de serem bons serviços.

Mas por quê a arquitetura de informação é (e continua) tão importante?

Imagine que você quer comprar uma panela pela internet. Em um mundo sem AI, o esforço de escolher, encontrar e comprar a melhor panela para a sua necessidade é tão grande que você prefere ir a uma loja. Mas espere: você não sabe como chegar lá, e não existem placas ou qualquer tipo de direção que o ajude a encontrar o caminho. Confuso, não é? Talvez até desesperador.

Garantir que uma pessoa consiga encontrar o que precisa, navegar entre a informação disponível e a entender da melhor forma possível para tomar uma decisão é o foco da Arquitetura de Informação. A partir de 4 pilares de atuação, profissionais desta área se preocupam em criar a estrutura que vai suportar a interface gráfica de um produto. E, assim como um prédio, se os alicerces não são firmes, há sempre o risco de desabamento.

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Enquanto à primeira vista algumas tendências modernas de produtos digitais podem dar a falsa impressão de que elas não sofrem mais impacto da AI, uma análise mais aprofundada sobre elas revela justamente o oposto: nesses novos contextos, a hierarquização e a adequada disponibilização da informação ao usuário se faz ainda mais crucial para a sua experiência.

Caso 1: O que acontece quando a interface não é minha?

Por que construir um novo aplicativo se você pode montar seu produto em cima de uma plataforma que todo mundo já usa? Isso aconteceu com o Facebook Messenger e outros aplicativos de troca de mensagens, como o Slack e o próprio WhatsApp, já oferecem ou anunciaram o lançamento de APIs que permitem a construção de serviços dentro de seus serviços.

Nesse caso, o que será projetado não é a interface gráfica em si, mas sim as interações possíveis entre o usuário e o serviço. Por exemplo: não é possível adicionar uma navegação, porque o serviço todo funciona dentro de uma janela de chat. Trata-se de uma tendência que já pode ser observada em soluções como o aplicativo do site Quartz para iOS, por exemplo: nele, usuários se mantém informado das novidades que lhe interessam por meio de uma dinâmica de chat. Nesse contexto, como o usuário inicia a conversa? Quais são as respostas possíveis para cada comando? O que acontece quando o comando dele não é reconhecido?

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Aplicativo do Quartz para iOS: plataforma messenger mantém o leitor informado

Implicações para AI: Se não é possível mexer na interface gráfica, o projeto do produto está todo baseado na organização da informação e como o usuário pode interagir com ela. Além disso, como os controles da interface pertencem à plataforma, o desafio está em deixar claro para o usuário o que ele pode, ou não, fazer usando apenas o texto, por meio da escolha cuidadosa de termos e comandos disponíveis.

Caso 2: o que acontece quando não há interface?

Por enquanto, ainda estamos falando de experiências que acontecem em uma tela. Mas e se ela sai de jogo? Avanços no reconhecimento de linguagem natural permitem que a máquina entenda não só o que você escreve, mas também o que você fala. As principais plataformas operacionais atualmente já têm as suas abordagens de “assistente virtual”. Ainda não chegamos a cenários como o visto em “Her”, o filme de 2013 que conta a história de amor entre um homem e sua assistente virtual, mas já conseguimos, em alguma medida, sermos entendidos pelos nossos devices quando falamos com eles.

Mas quando a interface deixa de ser gráfica, a estrutura e as conexões passam a ser muito mais importantes, porque não temos mais o suporte visual. Se não há um link para clicar, como o usuário navega de uma tarefa para a outra dentro do aplicativo? Quando o fluxo começa e como ele termina?

Filme "Her": voz como principal meio de interação com máquinas está próximo da realidade
Filme “Her”: voz como principal meio de interação com máquinas está próximo da realidade

Implicações para AI: É importante entender o contexto em que o usuário se encontra e mapear os principais casos de uso para modelar as ações possíveis do sistema – por exemplo, não ler mensagens em voz alta se o usuário não estiver usando headphones. Além disso, ao invés de depender da capacidade do usuário adivinhar quais são as ações disponíveis, iniciar a interação com ele por meio da oferta de algumas opções pode facilitar esse processo – aqui, até a escolha de comandos mais fáceis de pronunciar é um fator para o sucesso do produto.

Caso 3: O que acontece quando o sistema adivinha o que eu quero?

Não seria bom se você nem tivesse que pedir o Uber? Imagine que o aplicativo conecta-se com a sua agenda e sabe que você terá uma reunião do outro lado da cidade. Você só precisa descer e entrar no carro na hora em que ele te avisar. Sem planejamento. Sem estresse. As informações necessárias para fazer isso acontecer já existem, e cada vez mais serviços as utilizam para facilitar as decisões dos usuários – é o chamado Design Antecipatório.

Na Huge, acreditamos bastante no Design Antecipatório e nas possibilidades que ele oferece. E isso só é possível porque os usuários estão cada vez mais dispostos a fornecer informações sobre os seus hábitos em troca de serviços melhores e devido ao fato de finalmente termos ferramentas capazes de extrair padrões e predições dessa massa não-estruturada de dados – o tão alardeado Big Data.

Google Now: assistente virtual já antecipa necessidades dos usuários com seus cards
Google Now: assistente virtual já antecipa necessidades dos usuários com seus cards

Implicações para AI: Sabemos que é impossível organizar o Big Data. Mas há oportunidades para o arquiteto de informação identificar as fontes de dados disponíveis e como elas podem ser combinadas para encontrar os insights que o sistema precisa para criar uma experiência “mágica”.

Por exemplo, com o acesso à localização de um smartphone, um banco de dados de lugares e de preços de produtos, um aplicativo de lista de tarefas pode dizer para o usuário, enquanto este passa na frente do supermercado, que o iogurte está mais barato em um site – e ainda fazer o pedido por ele.

Além disso, o arquiteto de informação também pode pensar nas regras de negócio que controlam o sistema, traduzindo as sugestões da máquina em algo natural e amigável, ao invés de algo opressivo.

Conclusão: O hype passa, os princípios ficam

Com certeza, estamos muito distantes da época em que ter um sitemap e uma lista de filtros como entregável resolvia a maior parte dos problemas de interação de um produto digital. Os arquitetos de informação de hoje precisam unir o conhecimento clássico de organização, rotulação, navegação e busca com novas ferramentas e conceitos, como análise de dados e inteligência artificial. Mas a missão de tornar o complexo palpável para permitir que pessoas consigam encontrar o que procuram e vejam valor em um produto ou serviço digital continuará sendo a principal motivação da Arquitetura de Informação, independentemente da interface gráfica e se ela existe.

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