Carreira Dev

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A Apple, seu processo de seleção e por que eu desencantei daquilo tudo

26 fev, 2014
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Li esses dias o texto do Jordan Price, aquele designer que contou sua experiência de trabalhar na Apple, desde o processo de seleção, até sua demissão algum tempo depois (se não leu ainda, clica aqui). Isso me lembrou da experiência que eu, também, tive com a Apple um tempo atrás e resolvi escrever. Espero que este texto possa te ajudar a estar mais bem preparado e com expectativas no lugar, caso você participe de um processo na empresa.

Bom, terminei meu mestrado em agosto de 2010 e duas semanas depois viajei para Londres, onde morei por 7 meses. Quando retornei, com meu inglês fresquinho, achei justo mandar meu currículo para as grandes da minha área: Google, Apple e Microsoft – custa nada, né? Meu mestrado foi na área de Processamento de Linguagem Natural, então achei que pudesse haver algum interesse por parte delas. Mandei o currículo numa sexta-feira; na segunda-feira seguinte, recebi um e-mail da Google e, 4 meses depois (em setembro de 2011), um e-mail da Apple (não, até hoje, nada da Microsoft :P). Depois falo da Google, vamos primeiro ao caso Apple, que foi bem mais complexo.

A vaga era para “Localization Technologies Engineer”. O recrutador me enviou um descritivo sobre essa posição, que dizia se tratar sobre o desenvolvimento e tradução de recursos do iOS para o mercado estrangeiro, no caso, o Brasil. Ele agendou de cara 3 entrevistas por telefone, que seriam de 30 minutos cada, para conversar com diferentes profissionais de Cupertino. Na primeira delas, o entrevistador pediu que eu falasse sobre meu mestrado e sobre os desafios da língua portuguesa, seus diferenciais, estrutura de frase, conjugação de verbos etc. Além disso, ele me forneceu mais detalhes sobre a vaga: na verdade, eles estavam buscando uma equipe para trabalhar no desenvolvimento do Siri para Português-BR; Siri, que havia sido lançado pouco tempo antes e causado um auê na internet. Eu acompanhei o lançamento na época, e fiquei fascinada com os recursos do assistente. Trabalhar na Apple, no desenvolvimento do Siri para meu idioma materno, seria o auge da minha realização profissional!

Pois bem, tentando manter a empolgação controlada, seguiram-se as entrevistas. A próxima foi extremamente técnica, envolvendo perguntas específicas sobre banco de dados, linguística computacional, n-gram e afins. Já a terceira foi bem tranquila, somente assuntos gerais relacionados ao mestrado e ao trabalho, sem tantos problemas.

Depois de alguns dias, o recrutador retornou contato informando que a equipe decidiu prosseguir com o processo e agendou outras duas entrevistas. A primeira também foi técnica, mas de forma mais genérica; abrangeu questões sobre expressão regular, regras de formação de frases e estrutura de dados. A segunda, por sua vez, foi – digamos – inesperada. Assim que atendi, me surpreendi com a pessoa falando em português; era um brasileiro, que logo foi declarando não trabalhar na área de computação e nem ter experiência na realização de entrevistas. Muito simpático, ele me deu dicas sobre como é a vida por lá, sobre onde morar, meios de transporte, clima e coisas do gênero. Revelou que o trabalho lá é realmente bastante puxado, como dizem, que há de se abdicar de muitas coisas, mas que, segundo ele, vale a pena. Ao final, ele me enviou um texto em inglês para o qual eu deveria fazer uma tradução, que seria avaliada por ele em seguida. Simples assim.

Cerca de uma semana depois, o recrutador me comunicou que meu processo progrediria para o próximo passo, e agendou outras 4 (quatro!) entrevistas. Pelo que pesquisei sobre esses profissionais, percebi que seus cargos eram mais avançados, a maioria de gerência. Os contatos que se seguiram adotavam, de forma geral, o mesmo padrão: eu iniciava fornecendo detalhes sobre o meu mestrado e/ou trabalho, explicava os diferenciais que me qualificariam para a vaga em questão, e respondia perguntas relacionadas a linguagem, português e gramática. Dois deles, que me pareceram ser os responsáveis pelo processo de seleção, me informaram que, provavelmente, o candidato seria definido nas próximas 3 semanas. Aparentemente, meu processo estava chegando ao fim!

Depois disso, fiquei duas semanas sem contato, então enviei um e-mail solicitando mais informações. Em resposta, o recrutador agendou para conversarmos por telefone na semana seguinte, já em dezembro de 2011. Durante a conversa, ele me informou que a vaga estaria suspensa por algum tempo e que ele retornaria contato em janeiro ou fevereiro de 2012. Nem ele explicou, nem eu entendi o motivo para tal, já que eu havia sido informada, mais de uma vez, que estavam com certa urgência para finalizar a seleção e que, dentro em breve, tomariam a decisão.

E assim fiquei por meses. Terminou janeiro, terminou fevereiro e nada. Enviei um ou dois e-mails durante esse período, mas sem muitos esclarecimentos. Pessoalmente, já havia considerado encerrado o processo, por falta de informação. Todo o perfeccionismo que a empresa difundia não estava me fazendo aparente naquela situação. Em agosto de 2012, 8 longos meses depois, o recrutador finalmente retornou contato e informou que gostaria que eu retomasse as conversas com os membros da equipe. Na altura do campeonato, já estava desacreditada e cansada depois de 10 entrevistas (incluindo a conversa com o recrutador), tamanha espera e falta de informação. Toda aquela minha empolgação do início já nem era mais visível. Mas OK, que venham as próximas. Foram agendadas novas 4 entrevistas para a semana seguinte.

Já na primeira, conversei com um gerente de linguagem que trabalha na Apple de Paris; o fato é que eu já havia conversado com ele anteriormente! Ele se mostrou desentendido e constrangido, disse que provavelmente se tratava de um engano por parte do recrutador. Bem estranho, considerando que outras duas das entrevistas também seriam com profissionais repetidos. Esses, porém, seguiram o contato normalmente. Um deles, por exemplo, desenhou uma situação de pressão e pediu que eu fornecesse uma solução viável para a mesma. Por fim, a última entrevista foi com um engenheiro do Siri, que me apresentou questionamentos mais técnicos, sobre linguagem e estrutura de dados.

Passado tudo isso, mais uma vez, fiquei algumas semanas sem notícias. Aquela situação toda já vinha exaurindo meu tempo e minhas energias desde muito tempo. O trabalho dos sonhos já não me parecia tão bom; queria mesmo que aquilo terminasse, seja qual fosse a decisão. 1 mês e meio depois, então, o recrutador enviou a esperada resposta: a equipe decidiu não prosseguir com minha aplicação. Ufa!

A impressão que ficou depois desse quase 1 ano não foi das melhores. Já havia lido sobre a demora do processo de seleção da Apple, mas esses casos incluíam entrevistas prévias por telefone e entrevistas in loco, seguindo toda uma sequência de passos evolutivos. O meu caso não foi exatamente esse; achei o processo um pouco desorganizado e muito cansativo.

Totalizando, foram infindáveis 14 entrevistas, sem mencionar os atrasos e os agendamentos perdidos – em mais de uma situação, organizei meu cronograma para estar disponível no horário combinado e o entrevistador não deu sinal. Em alguns casos, a entrevista foi posteriormente remarcada, em outros, simplesmente cancelada. Além disso, aqueles 8 longos meses de espera e sem esclarecimento foram um tanto quanto indelicados com o candidato a futuro profissional da empresa.

Lógico, estamos falando de uma gigante mundial – qualquer seleção inevitavelmente será complicada e demorada, sabemos disso. Mas, pessoalmente, depois de passar por todo esse processo, “trabalhar na Apple” perdeu aquele sentido utópico e pomposo que tinha antes. Por motivos outros que os do Jordan, concluí que eu, também, queria MUITO trabalhar na Apple, mas agora nem tanto.

Ah, sobre o e-mail da Google! Após o primeiro contato, agendamos uma entrevista para a semana seguinte. Conversei com um engenheiro e, uma semana depois, recebi o e-mail da não confirmação. Simples e prático assim! 😛