Por Lúcia Freitas, para iMasters
Há dois anos, surgiu a chamada no Catarse para o financiamento do Busão Hacker. Quinhentas pessoas colocaram a mão no bolso e puseram o Ônibus Hacker nas ruas do Brasil (e do mundo).
Em junho, ele fará dois anos – com festa, no que depender da comunidade. Dos quinhentos iniciais, uma centena está na lista de discussão do ônibus, no Google Groups. Segundo Daniela B. Silva, uma das idealizadoras do projeto, “tudo no Ônibus Hacker aconteceu e acontece de forma muito orgânica. Quem se interessa pela proposta vai chegando junto, é simples assim”.
Desse grupo saem os vinte que colaboram para resolver todas as questões do Busão. De sistemas de transmissão a dinheiro, são essas pessoas que se reúnem aos domingos ou feriados – em torno de um churrasco com cerveja, porque todo mundo tem que se divertir – para trabalhar.
A comunidade tem as discussões normais de um grupo diverso, em que cada um pensa de um jeito. O resultado concreto do esforço são as invasões hacker, que começaram pelo Festival de Cultura Digital, no Rio de Janeiro, em 2011, e não pararam mais. Já são mais de 10 invasões, cada uma do seu jeito.
Não, não tem carona de graça. Quem entra no Ônibus Hacker precisa colaborar. Na pré-produção (que dá um trabalho enorme), nas oficinas, no evento. Tudo começa com uma “Chamada Aberta” (que é publicada no site), quando os interessados em participar preenchem um formulário no qual pedem para entrar e dizem o que vão fazer.
Apesar de o nome hacker remeter à tecnologia, não é só isso que entra. “O importante é operar na lógica do faça você mesmo e compartilhar o que sabe”, conta Daniela. “Já teve de programador a cantora; do pessoal da Voodoo Hop a gente de governo viajando com o Busão”, completa.
Descobrir como financiar
A magia da colaboração começou com uma ideia solta que virou realidade – e comunidade – que entrega energia e conhecimento para fazer o Ônibus acontecer. Mais que isso, eles ainda estão descobrindo como se pagar.
Nos eventos, todas as oficinas e eventos são gratuitos. E, para não ficar presa aos convites, a comunidade ainda está inventando a história de “como se bancar”. Até hoje, o dinheiro para o Ônibus veio de eventos dos quais participou. “Tivemos que ir descobrindo como e quanto cobrar, porque não sabíamos”, diz Daniela.
Depois das primeiras tentativas, o coletivo chegou a um jeito: custo por quilômetro. No custo, além da diária do motorista, combustível e manutenção (porque um ônibus velho exige manutenção constante), entram alimentação, ajuda de custo e hospedagem da tropa embarcada e um cachê para o próprio ônibus. A ideia é criar condições para que o Busão Hacker tenha também autonomia para decidir seu destino.
Além disso, outros modelos, como “Adote um Km” e autofinanciamento por quem quer embarcar já estão no mapa futuro.
Entenda o Ônibus Hacker e a comunidade
O Busão Hacker é um laboratório sobre quatro rodas no qual hackers de todas as áreas de conhecimento embarcam por um desejo comum: ocupar cidades brasileiras com ações políticas. Por política, entendemos toda apropriação tecnológica, toda gambiarra, todo questionamento e exercício de direitos. Por ação, entendemos a prática, o faça você mesmo uma antena de rádio, um projeto de lei, uma escola.
Nessa lógica, o download de um torrent é uma ação política tão potente quanto a construção de aplicativos a partir de dados abertos. E, encontros com esses, num busão, contam com o aditivo do caminho entre uma cidade e outra, quando ideias diversas se conectam e um orçamento público pode se tornar um lambe-lambe ou um grafite nos muros.
Desde então, já aconteceram dez invasões hacker por 100 pessoas de redes e áreas diversas, com um público que chega a dez mil pessoas.
Uma coleção ambulante de histórias
Conversar com a Daniela é uma oportunidade para escutar histórias divertidíssimas sobre o Busão. Um exemplo: fizeram uma invasão hacker em Ciudad del Este, no Paraguai. E, claro, compraram um monte de coisa por lá. Da caixa de som portátil com microfone, para usar em eventos, ao kit de walkie talkies (que começou com quatro e foi expandido para seis). Os busônicos (como às vezes se intitulam) se divertem acima de tudo.
Em janeiro, a turma se reuniu (sem o ônibus), no espaço da Ashoka, dentro da Campus Party Brasil 2013. Foi só o começo do ano. Depois disso, muitas outras invasões virão, com certeza.
Quer participar também? Assine o RSS do site (http://www.onibushacker.org), entre na lista de discussão e embarque nessa aventura. Todos são bem-vindos.
Esta matéria foi publicado originalmente na Revista iMasters. Acesse e leia todo o conteúdo.




