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Conteúdo Digital + Redes Sociais

O retrocesso e o vazio recompensado nas redes sociais

Estamos vivendo um momento muito interessante na comunicação e no marketing. Depois de descobrirmos o “poder das mídias sociais”, estamos em busca da melhor forma de aproveitar esse “poder” nos negócios. Todo esse movimento funciona em ciclos. Primeiro, vem a descoberta de uma novidade ou uma nova rede, o início da adesão, seguida pelo entendimento do “modus operandi” e, depois, a corrida por audiência. Acredito que quando falamos de grandes empresas, estamos no ciclo da busca por audiência.

Como profissional e consumidora tenho me preocupado com algumas modas que estão acontecendo nas redes sociais e, principalmente, em fan pages de grandes empresas. Basta dar uma olhada nas páginas com maior audiência para perceber a qualidade do conteúdo e a “infantilização” dos fãs. Páginas com milhões de fãs promovem um conteúdo tão vazio, que fica até difícil entender como as pessoas curtem e ainda se interessam por ele. Neste ponto, acho que não devemos ser políticos e pensar “cada um faz o que acha melhor”. Não acho que empresas essas empresas líderes em audiência no Facebook, que têm o poder de mídia e de comunicação, estão imunes ao compromisso com a qualidade do seu conteúdo.

Porém, o que faz com que este tipo de estratégia continue é a aceitação das pessoas e o engajamento delas com um conteúdo extremamente vazio. Por isso o retrocesso social vem à tona: ao invés de usarmos as redes sociais para realmente promover algo diferente, grandes marcas ajudam a promover o vazio e, o pior, isso dá certo.

Antes que você tire da cartola comentários preconceituosos como: “Brasileiro é uma desgraça”, “Aqui ninguém tá nem aí com qualidade” ou coisas do gênero, digo uma coisa: Oh wait!.

O enigma do retrocesso social parece ser global

Trazer este tema para discussão em nosso mercado foi uma iniciativa que tive a partir da leitura do texto “O enigma do retrocesso social”, escrito pelo genial Thomas Baekdal. A partir da leitura, pude perceber que esse é um problema global: o vazio recompensado. Na ocasião, Thomas avalia o caso da empresa Celeb Boutique. Em linhas gerais, a empresa foi extremamente estúpida ao se aproveitar do Trend Topic #Aurora para promover seus produtos.

Acredite se quiser

A hashtag #Aurora se tornou um dos temas mais populares do Twitter depois do massacre promovido dentro de um cinema na cidade com o mesmo nome. Se aproveitando do tema, a empresa Celeb Boutique teve a brilhante ideia de tuitar:

O Tuite dava a entender que o tópico #Aurora no Twitter era proveniente de um vestido com o mesmo nome à venda pela empresa. Obviamente, muitas pessoas se mostraram impressionadas com a falta de noção da empresa, que desencadeou uma série de críticas. A empresa pediu desculpas e disse que usou #Aurora em seu tuite, mas não sabia sobre o que a hashtag falava. Um erro grotesco e uma desculpa ainda mais patética. No entanto, Thomas chegou à conclusão que deu início ao seu texto e a este: Empresas agem como idiotas, criam crises nas redes sociais e se tornam MAIS populares. No gráfico abaixo é possível ver que depois do tuite desastroso, a empresa conseguiu mais seguidores!

O que era de se esperar: uma grande crise de imagem. Porém, a falta de noção se torna um trampolim.

Podemos nos perguntar: “Neste caso, as pessoas podem ter seguido a empresa apenas para saber sobre seu posicionamento frente à crise”. Porém, mesmo depois das desculpas e solução do caso, as pessoas continuaram lá. Em situações de crise, esse argumento até pode ser válido, mas quando estamos falando de conteúdo cotidiano?

O problema é que casos dessa natureza ou do descomprometimento das empresas com conteúdo é amplamente recompensado pelas pessoas. Por quê? Por que empresas como a Arezzo, que foi divulgada de forma negativa nas redes sociais por sua coleção de produtos de pele de animais, acabou faturando 40% a mais? O que leva as pessoas a aprovarem, recomendarem e curtirem esse tipo de comportamento?

Mais #fail, mais fãs

Alguns podem dizer que postar conteúdo divertido nas redes sociais dá resultado, mas, com o passar do tempo, o que será feito com esses milhões de fãs que incentivam as marcas a não investirem em qualidade? E olha que eu nem mencionei a compra de fãs.  Ficamos tão felizes com a utilização das redes sociais para espalhar bons exemplos, boas práticas corporativas, cobrar por soluções, espalhar problemas sociais, facilitar nossa vida. O que será de nós, profissionais, se apenas posts do tipo “Curte vs. Compartilha” e frases de autoajuda forem o que realmente funciona?

Como profissional, e por produzir conteúdo, realmente me preocupo com isso. Tenho medo de ver meus clientes cobrando esse tipo de interação vazia ou utilizar outros temas em discussão para autopromoção – porque que os fãs gostam – dominando um planejamento e relacionamento na comunicação corporativa. Não nego que humor e temas mais “leves” precisam fazer parte da vida das pessoas para descontrair. Mas há um ponto em que é preciso virar a chave a ter uma visão mais crítica sobre o que nos impacta.

Gostaria de saber a sua opinião, tanto como profissional quanto consumidor. O caminho a seguir é esse mesmo? Vale tudo na hora de conquistar audiência ou é melhor pisar no freio e rever e cobrar mais qualidade? As empresas atendem a demanda de conteúdo do seu público ou, a partir de mídia e garotos-propaganda, molda as pessoas ao seu conteúdo vazio?

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14 Comentários

Vitor Guerra

Excelente artigo. Apesar de não concordar com alguns pontos de vista, acredito que devemos incentivar sempre este tipo de debate sério sobre conteúdo e mídias sociais.

    Camila

    Muito obrigada Vitor. Você não só pode, como deve discordar, acho que assim podemos discutir e trazer muitos pontos de vista. Abraços

Estratégia Digital

Camila, td bem?

Há contas em que as futilidades são o interesse do público. Há outras (poucas) em que isso não acontece…não dá para jogar todas no mesmo balaio de gato.

Concordo que a futilidade incomoda e emburrece. Mas aproveitar as brechas e fazer o faturamento dos clientes aumentar nessa condição é o objetivo né?

    Rodrigo

    exato!

    Camila

    Acredito que humor e coisas engraçadas devem fazer parte da comunicação das empresas nas redes sociais. Porém, a crítica é justamente às empresas que só fazem isso e, pior, se comunicam com seus clientes a partir de modismos, sem se preocupar com a imagem que está construindo, banalizando as relações apenas sobre seu número de curtir. A crítica vai justamente às empresas e profissionais que fazem desse formato de comunicação fútil não a exceção, mas a regra. Temos vários paradigmas sendo quebrados em relação à comunicação emburrecedora das emissoras de TV ao longo dos anos. Não acho certo, como profissional, que isso seja reproduzido nas mídias sociais e que isso acabe se tornando o jeito certo de fazer porque trás resultado. Ser críticos quanto os meios e fins acho que faz parte de qualquer profissão. Obrigada pelo comentário e vamos continuar a discutir.

Adriane

Ouço sempre essa frase “quem faz a empresa são os funcionários” e quem faz as mídias, não são os usuários? Penso que tem muitas empresas que se aproveitam sim da futilidade de alguns usuários mas também é de saber que tem outras com conteúdo bom pra compartilhar, a questão é a escolha que cada um faz.

    Camila

    Oi Adriane. Em linhas gerais, esse poderia ser o caminho: cada um faz o que gostaria. Isso acaba sendo a regra nas redes sociais, desta forma, criamos mini-redes dentro de uma rede maior, selecionando o conteúdo que fará parte do nosso feed de notícias. No entanto, a crítica em si não é por conta da utilização da ferramenta por parte dos usuários, penso que neste item cada um a utiliza e filtra o conteúdo que deseja ver da forma que desejar. A questão aqui é justamente discutir o papel das empresas neste processo. Acho que conteúdo de qualidade, especialmente nas fan pages de grandes marcas, tem muito poder, tanto para passar alguma mensagem bacana, quanto para formar um conceito de marca. Neste ponto, vejo que muitas empresas tratam seus fãs como crianças ou os subestimam intelectualmente. A reprodução desse conceito em marcas com milhões de fãs e milhões no orçamento pode ser “copiado” e desejado pelos pequenos, que acham que isso é o certo a se fazer. O motivo do texto, na verdade, foi justamente esse: ver pequenas empresas copiando a postura de grandes empresas em busca de curtir. Isso, para mim, não é sustentável e coloca em risco a eficiência da ferramenta e o esforço dos profissionais, já que qualquer um poderá postar memes e cachorros, caso essa lógica seja a que vença. Hoje sabemos que o marketing, em qualquer ambiente, demanda conhecimento, estudo, planejamento e tanto cuidado quanto qualquer outra área de atuação.

Leandro Gomes

Ótimo artigo Camila,
Ao meu entender estamos a vivenciar um aspecto comum relacionado a comunicação mercadológica, as empresas que fazem um comunicação planejada nas redes sociais insistem em abordar conteúdo com uma pseudo qualidade, direcionada a uma audiência passiva ou adeptas a passividade, e querem transformar canais que por suas características seriam excelentes fontes de debates e interação entre marca e consumidor em meras vitrines de produtos, sem a mínima provocação aos receptores. Nada melhor do que transformar uma comunicação de nicho em comunicação de massa. E qual será a próxima redes social dos sonhos?

    Camila

    Olá Leandro. Apesar de achar que mídias sociais não sejam uma coisa nova, penso que um possível próximo passo seja esse: entender a lógica das ferramentas e como elas podem ser além de uma vitrine online. Abraços

Evânio

Ótimo artigo, parabéns! Penso que isso representa o emburrecimento das pessoas, embora a ferramenta não tenha nada a ver com isso, o Facebook e outras redes acabam contribuindo com a disseminação de futilidades, mensagens racistas, preconceituosas, xenofóbicas e os tolos curtem…

Annita Velasque

É uma discussão antiga essa. Pois existe o mesmo questionamento em relação à TV, por exemplo. Os programas mais ridículos são os que tem audiência. E aí? A mídia social é mídia também, e precisa de retorno.

Acho que o caminho do meio continua sendo o melhor, em qualquer mídia. Não dá para ignorar o compartilhamento e a curtição da audiência, mas também não podemos perder o foco da construção da marca. Dá para misturar, e ter momentos leves e outros mais sérios nesse conteúdo. Sem preconceitos.

Renata Checha

Camila, sensacional seu artigo! Muito, muito bom mesmo. E me lembra um outro artigo que escrevi a não muito tempo, se quiser ler fique à vontade: http://gowebz.com.br/planejamento-digital/conteudo-digital-entretenimento/

Raphael Leão

Achei muito legal! Nem tinha ouvido falar disso mas já vinha observando isso nas redes sociais. Não acho certo fazer isso mas não adianta nada lutar contra algo que só o tempo pode mudar, e a publicidade é assim, as vezes devemos fazer sem sem se preocupar com o que é certo ou errado. A cabeça das pessoas hoje ta funcionando de uma maneira, vivendo coisas diferentes do que os pais viveram e não vai ser um balde de conhecimento que vai mudar a cabeça delas pra melhor. Pensando assim logo coloca mesmo o negócio pra fuder mesmo, como já dizia Racionais Mc´s, não jogue perola aos porcos, joga lavagem, eles preferem assim!

Qual a sua opinião?