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O mercado de e-books no Brasil: o pior cego é o que não quer ver

A imprensa noticiou que a Amazon prepara sua chegada no Brasil. Poucos se arriscariam a definir o que é a Amazon. Livraria, editora, estúdio cinematográfico, operadora de telefonia? É tudo isso e muito mais! A convergência de mídias, sobre a qual tanto se fala há anos, tão bem debatida no livro Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, parece ter na palavra “Amazon” um fortíssimo sinônimo.

Já sabemos que o modelo Amazon consegue mexer com a estrutura de diversas áreas. Mas hoje eu quero me concentrar no mercado editorial; especialmente o brasileiro, que, a meu ver, demorou demais a compreender essa revolução dos livros digitais. 

Segundo dados da Nielsen BookScan, a queda nas vendas dos livros impressos nos Estados Unidos dobrou em dois anos (sendo que a maior redução foi em ficção – 7,2% em 2010 e 18% em 2011). No Reino Unido, nas primeiras quatro semanas de 2012, a redução nas vendas de livros físicos foi de 12% no geral e de 26% apenas em ficção. O mesmo ocorre na Espanha. Na Itália, a exceção, as vendas de ficção ainda crescem.

No Brasil, onde a cada ano que passa as grandes editoras reduzem a quantidade de títulos publicados, inusitadamente, o mercado editorial festeja os índices apresentados no recente levantamento “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (FIPE/USP). Os resultaos mostraram um crescimento de 7,2% nas vendas do setor literário no Brasil. Dos 438 milhões de exemplares vendidos em 2010, foram vendidos 469,5 milhões em 2011.

É importante lembrar que a análise da FIPE/USP, que apura dados nos segmentos que sustentam a cadeia produtiva do livro, ou seja, o mercado (livrarias e outros pontos de venda) e o governo (que compra das editoras por meio de programas como Plano Nacional do Livro Didático – PNLD), avalia o preço médio do livro, que não corresponde ao que é pago pelo consumidor, e sim às vendas (com descontos) das editoras ao mercado e ao governo. Ainda segundo o levantamento da FIPE, os títulos digitais ainda não têm influência significativa na elevação ou queda do preço médio do livro, mas começam a fazer presença no panorama editorial, com mais de 5.200 títulos lançados em 2011. O número equivale a aproximadamente 9% dos mais de 58 mil títulos totais lançados em 2011. Em relação às vendas, o total corresponde a um faturamento de cerca de R$ 870 mil. Enfim, muito pouco, quase nada. 

Enquanto isso, nos EUA, segundo relatório recentemente divulgado pela  Association of American Publishers (AAP), os livros digitais já trazem maior faturamento aos editores americanos do que os tradicionais livros de capa dura. Além disso, no seguimento de livros para adultos, entre janeiro de 2011 e janeiro de 2012, as vendas de e-books cresceram cerca de 50%. Já no seguimento de livros infantis, o crescimento do faturamento foi de 475% no mesmo período!

Resumindo, a situação é a seguinte: no mercado brasileiro, celebra-se o “crescimento” das vendas de livros impressos e nos EUA, o faturamento, cada vez maior, ano a ano, na venda dos e-books. Pergunto a você, prezado leitor, qual das duas situações deveria, digamos, ser mais celebrada?

A grande verdade, amigos, é que as editoras nacionais ainda não reconhecem a importância cada vez maior do conceito de inovação no mundo atual. Editoras concorrendo com empresas de tecnologia? Ora, só incorporando inovação e, claro, tecnologia nos seus processos. Existem ainda grandes editoras brasileiras (pasmem!) que não possuem intranet e não dão a devida atenção à gestão de seus ativos digitais. É nesse cenário hostil que as editoras precisarão lutar para sobreviver. Se querem ter melhores chances de sobrevivência, precisam, para começar, “tirar a venda” (que elas mesmas colocaram) dos olhos. É preciso fazer o trabalho de casa. Esquecer o passado e olhar (de forma positiva) para o futuro. A crise, acredito, pode ser oportunidade para ampliar (até) sua carteira de clientes e portfólio de produtos e serviços.

Livros e software são produtos do intelecto. Conhecimento recuperado, produzido, editado, empacotado e publicado. O que estamos observando é que a Amazon, Google e Apple (Microsoft, em breve) também se tornaram “editoras” e “livrarias” dos novos tempos. Elas apostam nos livros digitais, pois sabem que eles tendem a superar, por diversos motivos, a vendas dos livros impressos. Entretanto, as editoras em geral (e principalmente as brasileiras) insistem em enaltecer uma tecnologia do século XV (a prensa de Gutenberg), modelos de negócios do século XIX, achando que assim vão se estabelecer no século XXI. Ainda se ouve (acreditem!) entre muitos editores brasileiros a discussão sobre a “insuperável” supremacia do livro impresso sobre o digital. 

Mesmo no Brasil (sabemos o seu “custo” intrínseco), não vejo como a Amazon não se estabelecer nos termos que melhor lhe aprouver. Problemas à vista para a “concorrência”. O grande problema dos “concorrentes” brasileiros não é a falta de tecnologia em si, mas o seu mau uso. Os serviços prestados pelas editoras e livrarias estão, infelizmente, muito abaixo da competência esperada pelos clientes e necessária para se “fazer sombra” aos serviços prestados pela Amazon. Correr atrás do prejuízo ou bater de frente com a Amazon me parecem más escolhas. Uma solução? Editores e livreiros focarem no seu cliente e saiberem escutá-lo. Enfim, façam o que sempre deveriam ter feito. Mesmo que isso signifique (e isso vai significar, não tenho dúvida) trabalhar junto com a Amazon.

Quando a Amazon joga o preço dos livros lá embaixo, não está desvalorizando (como dizem por aí, tendenciosamente) o produto livro, muito pelo contrário, está sim é escutando o cliente que quer livros mais baratos, para poder consumir mais. Livros a preços mais baixos significa mais livros comprados. É melhor para escritores (incluindo os independentes) e, claro, para os leitores. É tão difícil ver isso? Acho que não. Quem não enxerga, certamente, não é porque seja cego, é porque não quer ver. E aquele que não quer ver, sabemos, é o pior cego.

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9 Comentários

Flash

Eu mesmo pedi a um amigo para trazer um kindle touch de fora, e estou viciado nele. Já compro livros na Amazon que valem muito mais a pena do que pedir para importar um de papel nas lojas físicas.
Sei que muitas pessoas preferem livros de papel, esse mercado vai continuar, mas se as empresas nacionais não correrem pra dar opções digitais, a Amazon vai passar uma boa rasteira nelas…

Celson

Eu possuo um Kindle Touch e um Kindle Keyboard 3G, sendo que este segundo fica na mão da minha esposa. Estamos lendo muito mais do que antes, e geralmente compramos dois livros por semana. Nunca fizemos isso quando liamos livros de papel. Estou sempre indo na Amazon Kindle Store para procurar novos títulos. Com o Kindle posso ler 3 livros ao mesmo tempo sem ter que andar com vários volumes para todo lugar que vou.

C.S. Soares

Flash, concordo plenamente. Creio que os consumidores brasileiros que puderam comparar o serviço prestado pela Amazon e o das livrarias nacionais terão a mesma opinião. Celso, passei pelo mesmo processo: o Kindle, a Kindle Store, preço, maior facilidade de acesso, etc, aumentarão a quantidade de livros comprados. Haverá compra por impulso, etc. É mais cômodo, prático e eficaz. Vc está no meio de uma palestra, alguém indica um livro e você acessa a Kindle Store e compra o livro em segundos. Vamos, sim, precisar é de um bom software de gestão de livros digitais. ;) Abs e obrigado pelos comentários. Na semana que vem volto ao tema.

Hamilton Pitanga

Coisa que nunca entendi: por que os livros fora de catálogo não estão disponíveis como e-books?

Rodrigo Alexandre Ceschi

Há um tempo, a editora Abril iniciou o serviço IBA, de livros, revistas e jornais em formato eletrônico. O software de leitura, modo de uso tudo muito bom. Só há um pequeno problema. Os preços são os mesmo da revistas impressas. Eu não tenho tablet. Mas não vou gastar no mínimo 600,00 em um tablet, se meu principal uso para ele seria este, de leitura digital, se o preço de uma revista digital é o mesmo da versão impressa. Nesse caso fico com o papel mesmo, mais prático de ler. Acorde para a realidade, editora Abril !

C.S. Soares

Hamilton, poderiam estar disponíveis e até deveriam. Existe o problema dos direitos autorais (muitas vezes, novos contratos precisam ser assinados), mas, principalmente, a grande causa é que as editoras brasileiras ainda não conseguiram se adaptar aos novos tempos. Primeiro, elas ainda usam modelos de negócio do “século XIX” e acreditam que vão conseguir estabelecê-los no mercado do “século XXI”, com internet, redes sociais, etc. Por muito tempo, acharam que os e-books canibalizariam os livros impressos. Bem, aqui elas estavam corretas. Mas, a crise, na verdade, é oportunidade. É tendência que os livros digitais sejam consumidos em maior quantidade por leitores individuais. Nós compraremos mais livros, no individual, e no coletivo, como o mercado americano já começa a mostrar. Na última semana, soubemos que a venda dos ebooks superou pela primeira vez a venda de livros de capa dura nos EUA. Isso é só o começo.

C.S. Soares

Rodrigo, você está certo em lançar o alerta. Aliás, todas as editoras brasileiras mereceriam receber o alerta. Eu não tenho dúvidas de que os preços de tablets e e-readers dedicados vão cair. Mas, faltam maior diversidade de conteúdos brasileiros e, quando existem, trata-se ainda muito de copiar o modelo impresso no digital. É importante que os editores compreendam que não são apenas produtores de livros e revistas impressas. Precisam pensar em novos modelos de publicação mais adequados aos usuários de dispositivos de leitura digitais. Os preços devem ser mais adequados e suporte técnico de qualidade deve ser oferecido. Editoras agora são empresas de tecnologia. Precisam abrir mais a porta para profissionais da área de TI. É uma coisa nova, mas a tendência é que as áreas de TI e mercado editorial (de ponta a ponta) cada vez mais se misturem. Vide, apenas para citar um exemplo, o anúncio da recente parceria entre Microsoft e Barnes & Nobel, uma das principais livrarias americanas.

C.S. Soares

Se você é um autor (real ou potencial) e quer obter mais informações sobre como publicar seu livro, não perca o próximo artigo. Abs.

    Américo

    Olá C.S.Soares
    Parabéns pelo enfoque -real no mundo virtual.
    De nada adianta simplesmente digitalizar livros,jornais ou revistas e pensar que isto atende o anseio dos leitores.Queremos qualidade,preço justo,mobilidade e praticidade.A tecnologia é cada vez mais amigável e esperamos isto dos editores.
    A propósito onde encontro o artigo para potenciais autores;tenho interesse em publicar um livro digital.
    Abçs,

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