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Inteligência Coletiva

A colaboração na internet é uma forma de “inteligência coletiva“. Trata-se de um termo popularizado por Tim O´Reilly, fundador da O’Reilly Media (antigamente nomeada O’Reilly & Associates) e entusiasta de movimentos de apoio ao software livre e código livre( GOOSSEN, 2009), mas podemos considerar que esse conceito sempre existiu desde os primórdios da sociedade humana. A diferença é que, nos dias atuais, a internet é usada como ferramenta para tornar mais ágil esse tipo de inteligência coletiva e, por conta disso, esse conceito ganhou novas dimensões. Podemos identificar três formas de gerar Inteligência coletiva:

  • Inteligência Coletiva Inconsciente: na qual o usuário contribui com informações mesmo sem saber, pelo simples ato de navegar, ou seja, seu “rastro”. Nessa categoria, podem ser considerados cliques em links, figuras, preenchimento de formulários etc. Essas informações são registradas pelos servidores e pelos softwares que irão reunir os dados e fornecer determinadas informações e padrões.

“[…] cada clique com o mouse ou o teclado é uma decisão, passível de ser registrada e aproveitada por determinado sistema que a organiza e permite que os outros se beneficiem do rastro deixado por quem veio antes. Desta forma, um usuário pode saber qual o livro mais vendido numa livraria. Ou, no caso de um blog, qual dos artigos publicados foi mais lido ou comentado, criando um critério de relevância, que acelera a decisão do visitante […] (CAVALCANTI; NEPOMUCENO, 2007, p. 36)

  • Inteligência Coletiva Consciente: modalidade reservada a alguns grupos, na qual é necessário o esforço dos membros para sua efetiva concretização. O desenvolvimento do Linux e de outros “softwares livres”, o empenho de usuários nas listas e nos fóruns de discussões em resolver determinado problema podem ser bons exemplos de inteligência coletiva consciente, na qual os participantes sabem que estão desenvolvendo algo em prol de uma causa.

“O exemplo mais significativo são as listas de discussão por temas específicos, que ajudam na organização, filtragem, avaliação e recuperação da informação para gerar conhecimento tanto para os que estão na comunidade quanto para os que virão. O desenvolvimento do Linux e de outros programas de software livre é a demonstração mais notória do poder desta modalidade, com listas focadas em um objetivo (no caso, o de elaborar um sistema) que há anos vem trocando informações para gerar conhecimento em forma de softwares. (CAVALCANTI; NEPOMUCENO, 2007, p. 38)

  • Inteligência Coletiva Plena: é aquela que consegue unir em um mesmo ambiente as duas anteriores.

O quadro a seguir mostra as características mais marcantes da inteligência coletiva consciente e inconsciente: 


Características da Inteligência Coletiva Consciente e Inteligência Coletiva Inconsciente. (Cavalcanti e Nepomuceno, 2007 p.40)

Inteligência Coletiva por meio de redes sociais

Existem inúmeras redes sociais onde é possível aproveitar-se da inteligência coletiva. A comunicação livre, horizontal, permite que algumas empresas aproveitem-se desses meios para monitorar comportamentos dos consumidores, identificar tendências de mercado e até monitorar suas marcas, já que a participação dessas pessoas é relevante no processo de compra de outras pessoas. Pensem que os usuários de hoje são sofisticados e procuram por informações relacionadas aos produtos que os interessam em diversos meios, para obterem opiniões de outras pessoas e estarem seguros de sua compra.

É possível utilizar a inteligência coletiva por meio de sites de redes sociais na internet de modo muito eficiente. O LinkedIn é uma rede que proporciona a colaboração de muitos desses tipos de usuários, pois disponibiliza uma coleção de dados de profissionais que se conectam de diversas formas: seja como um simples colega de trabalho, seja em uma relação cliente/fornecedor ou mesmo através de eventos. Essa rede tão bem articulada liga vários profissionais de diversas áreas e mostra suas qualidades, além de alguns projetos em que trabalharam. É possível, inclusive, obter informações e indicações sobre determinado trabalho realizado pelo respectivo profissional, através do LinkedIn. Empresas podem navegar por essa ferramenta em busca de profissionais gabaritados e competentes em determinado setor ou área de atuação.

No YouTube, uma ferramenta que possibilita a inserção de vídeos por seus usuários, gravadoras de todo o mundo possuem canais onde disponibilizam clipes de seus artistas. A gravadora europeia “NuclearBlast”, por exemplo, tem seu canal no YouTube (http://www.youtube.com/user/NuclearBlastEurope), onde disponibiliza vídeos dos seus artistas, além de permitir que seus usuários comentem e colaborem também com a comunidade.

Fora dos sites de redes sociais

Perceba que a inteligência coletiva não depende somente dos sites de redes sociais. Fora deles, também é possível reconhecer a inteligência coletiva. Como exemplo, dois casos podem ser citados: Google e GoldCorp.

O Google utiliza-se da inteligência coletiva para o funcionamento de seu PageRank, um dos algoritmos responsáveis por atribuir um nível de popularidade a um site. Basicamente, o PageRank considera os links que apontam para um determinado site como votos. Dessa forma, um blogueiro, por exemplo, ao comentar uma determinada notícia publicada em um jornal e referenciá-la por meio de um link dá um voto para a página da notícia.

Na época da crise do ouro em 1999, a GoldCorp tinha como seu principal executivo, Rob McEwen. A empresa passava por problemas como: greves, dívidas e um custo alto de produção.

Inspirado por casos de colaboração como o do Linux, por exemplo, Rob McEwen teve a ideia de trazer para a GoldCorp o conceito de colaboração, para que a empresa pudesse encontrar ouro e usufruir do conhecimento de outras pessoas, agregando valor à empresa de forma inteligente. Para isso, o executivo promoveu o que ficou conhecido como “Desafio GoldCorp”, que premiaria em US$ 575 mil dólares os ganhadores. O desafio consistia em liberar, por meio de seu site na internet, os dados geológicos da empresa, disponíveis desde sua fundação até os dias de hoje. Esses dados poderiam ser analisados por especialistas no mundo todo, que deveriam propor uma forma de se encontrar os minérios desejados pela companhia.

Os ganhadores do desafio partiram de uma junção de dois grupos da Austrália: Fractal Graphics e Taylor Wall & Associates, que juntos desenvolveram uma poderosa descrição gráfica da mina em 3D sem nunca antes terem tido algum contato físico com as minas. Isso fez com que o custo de produção das minas diminuísse, e a saúde financeira da empresa voltasse ao normal.

Caso InnoCentive

Esse é um caso que me chama bastante a atenção, pois se trata de uma empresa totalmente voltada à colaboração. A InnoCentive, empresa americana sediada no estado de Massachusetts, na cidade de Waltham, nasceu em 2001. Teve origem em um brainstorming sobre como modelos de relacionamento poderiam criar rupturas nas práticas de negócios. Aaron Schach e Alph foram os fundadores dessa patente.

Atualmente, a empresa é liderada pelo seu presidente Dwayne Spradlin. Trata-se de uma comunidade aberta para soluções de problemas e pesquisa. Aberta, pois conta com profissionais (chamados de Solvers ou “solucionadores”) que podem inscrever-se para solucionar algum tipo de problema. A InnoCentive basicamente lista uma série de desafios científicos, de algumas empresas (Seekers, que buscam soluções), que precisam de respostas, ligando de uma forma inteligente essas instituições às pessoas que pesquisam ou estudam a área problemática, para que possam ajudar a resolver determinado problema ou proporcionar inovação. Tanto empresas que irão lançar um desafio ou apresentarão um problema, quanto os candidatos que irão tentar resolvê-lo, fazem um cadastro no site. Como premiação, as pessoas que conseguirem resolver os problemas listados de uma forma viável recebem recompensas em dinheiro.

Essa plataforma permitiu a um químico aposentado, Werner Mueller, por exemplo, receber um valor financeiro por resolver um problema de uma empresa farmacêutica. O químico desenvolveu um método simples e barato de produção, para um determinado medicamento.

Certo dia, no final de 2001, uma empresa farmacêutica necessitava de matéria-prima bruta para um produto que seria colocado no mercado. Apesar de o composto químico não ser tremendamente caro, o método para produzi-lo era ineficiente, o que afetava bastante o custo final do medicamento. A equipe interna de P&D estava se esforçando para encontrar uma solução, e o projeto já havia estourado o orçamento. Então, a equipe postou o problema no InnoCentive, onde Mueller logo o reconheceu. Era um problema que Mueller identificou graças às suas décadas de experiência como químico. Ele foi trabalhar em seu laboratório e, pouco depois, enviou uma solução valiosa. A empresa ficou muito satisfeita – era uma solução que ainda não havia sido levada em consideração – e Mueller ficou US$ 25 mil mais rico. Ele reinvestiu o prêmio em seu laboratório e transformou o hobby da sua aposentadoria em uma empresa de consultoria. (TAPSCOTT; WILLIAMS, 2007 p. 125)

Sendo assim, é possível crer que a colaboração, do ponto de vista da web, é o ato de permitir que o usuário de internet participe das etapas e dos processos relacionados a algum tipo de atividade, e a inteligência coletiva é o que ocorre quando isso acontece.

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3 Comentários

Marcio Hiroshi Okabe

Olá Eric,
Excelente artigo, e adorei ter citado cases do livro “Wikinomics” como da mina GoldCorp.
Em SEO falamos dezenas de estratégias e técnicas, mas acredito que o conteúdo colaborativo será uma das grandes tendências, e a inteligência coletiva como você abordou muito bem será fator decisivo para o sucesso das empresas.
Abraços,
Marcio Okabe

Gustavo Sartori

Oi Érick! Realmente um ótimo artigo!

Gostei muito dos casos citados, em especial o da InnoCentive.

Tendo a colaboração como ‘centro’ da web 2.0 e considerando que, cada vez mais, empresas estão conectando-se à internet, imagino que este modelo de negócios (pouco explorado) pode se tornar febre.

Erick Formaggio

@Marcio, primeiramente, obrigado pela contribuição. Concordo plenamente com sua afirmação “será fator decisivo para o sucesso das empresas”, principalmente se as empresas estiverem abertas para esse formato.
@Gustavo, já está se tornando, mas em muitos nichos ainda está longe do ideal.

abs!

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